As mulheres não tomam o poder porque os homens não querem?

Sempre imaginei o mundo como um grande playground onde as mulheres deixavam os homens brincar.
As mulheres não tomam o poder porque os homens não querem? Engano, meu caros, engano. Não assumem o poder ou se recusam a exercer outras atividades igualmente indignas porque vêem isso como vulgares brincadeiras masculinas, algo semelhante ao futebol, ao peão, à pipa, à sauna às quintas-feiras (e se tem algo que para mim nunca fez sentido é a sauna).
Conversas sobre as relações de poder e preponderância de um sexo sobre o outro causam-me imensa confusão porque tendo a achar que a mulher do diálogo é, na verdade, um travesti. Só homens são capazes de tais vulgaridades.
PS: Eu ia falar sobre a nomeação oficial de bObama como candidato do partido democrata às eleições presidenciais americanas, mas, enfim, achei igualmente vulgar.
PS3: Na infância eu tive um amigo cuja alcunha era Cabeça de Ovo, apodo que dispensa explicações. Por que digo isso? Ele era a cara do bObama. Quando olho para bObama na TV sempre penso: lá vai o Cabeça de Ovo. Memórias infantis são mesmo cruéis.
1 commentO funeral público da crítica literária

Interessa-me na crítica de um livro uma análise que transcenda a literatura; que faça dela uma ponte para a incursão histórica, política, sociológica, antropológica, cultural, civilizacional.
Crítica literária encerrada em si mesma inspira compaixão em seu paupérrimo funeral público. A análise de uma obra que se vale dos insuficientes instrumentos teóricos da teoria literária é um cadáver insepulto que expele miasmas e odores por onde é publicada.
Como não ver corrupção e vilania na soberba difundida pela maior parte dos resenhistas e críticos literários, essas entidades perversas que não raras vezes hipervalorizam esse ofício janota?
No commentsEstado que não estimula os indivíduos transforma-os em inimigos

Muitíssimo bom o texto publicado pelo jornalista Renato Lima no Jornal do Commercio (PE), onde trabalha. Renato, que também é um dos editores do ótimo programa de rádio Café Colombo, esteve nos EUA para um curso no The Foundation for Economic Education.
1 commentNegócios no Brasil: pior que nos jogos
“Não troco a dita recessão americana pelo crescimento econômico do meu país”, me contou um motorista peruano, em Tarrytown, Nova Iorque, onde estive participando de um seminário de economia. Assim como ele, salvadorenhos, guatemaltecos e equatorianos com que conversei não pensavam em voltar a seus países de origem. São migrantes, distantes de onde nasceram, mas bem melhor remunerados e com perspectivas futuras.
Em Washington, encontrei-me com um pernambucano, hoje empresário de telefonia nos EUA. De perfil empreendedor, tem dificuldade de aceitar a burocracia que existe no Brasil para se abrir um negócio e o próprio clima de apatia e tristeza dos jovens que aqui ficaram e mantém contato. Ou estão estudando para concurso ou pensando em migrar para o Canadá. Ou seja: tentam entrar no Estado gigante e garantir condições privilegiadas – que o resto da sociedade não têm – ou simplesmente desistem deste país e vão começar suas carreiras em outro. Neste momento, a Inglaterra ameaça voltar a exigir vistos de entrada a brasileiros, tamanho o número de imigrantes ilegais em busca de trabalho naquele país.
Por que é tão mais fácil para esses latinos terem sucesso fora dos seus países? A disposição para o trabalho não é a mesma? A resposta está nas instituições. Nas sociedades de confiança, tema trabalhado por Alain Peyrefitte, o resultado está associado ao mérito, ao esforço, ao trabalho. As instituições não conspiram contra o empreendedor, com excesso de controles e desconfianças. Por aqui, empreender significa primeiro driblar uma burocracia, pagar concessões, alvarás, documentos, reconhecer firmas e fazer um imenso trabalho que em nada tem a ver como a primordial tarefa do empresário: inovar no produto e cativar clientes.
O nosso patrimonialismo, que concentra poderes no Estado para redistribuir favores a amigos do partido no poder, vem aumentando, independente de pontos percentuais a mais no PIB. A lógica é dispersar custos - cobrando caro de todos - e concentrar benefícios, agradando setores alinhados politicamente com reduções seletivas de tributos ou cargos nos governos.
O Banco Mundial publica, anualmente, uma pesquisa em que analisa a facilidade de se fazer negócios, avaliando aspectos como contratar funcionários, número de alvarás necessários, tempo para abrir e fechar empresas, carga tributária, registro de propriedade entre outros temas. Chama-se “Doing Business” (Fazendo Negócios) e na amostra de 2008 há 121 países no mundo em que empreender é mais fácil do que no Brasil. Como se vê, o desempenho da equipe olímpica, coroado de choro não motivado por alegria, é melhor do que o nosso ranking de facilidade empresarial. Recessões passam, mas instituições ruins perduram por mais tempo. E, enquanto isso, o povo migra. Como dizia Milton Friedman, votam com os pés, fugindo dos seus países.
E claro que foi…
…, e foi mesmo, of course, claro, claro. Devo à generosa amizade do Alexandre Soares Silva e sua internacional e interplanetária rede de contatos a descoberta de Miguel Esteves Cardoso e João Pereira Coutinho. Aliás, o livro Vida Independente, do JPC, que peguei emprestado junto com um do Mencken (cujo nome esqueci), ainda não devolvi ao ASS (sorry, meu caro. Os livros estão bem guardados e em janeiro vos devolvo).
1 commentUm excelente seminário de filosofia (estudem, meus caros, estudem)
Fatalmente, você todos já devem saber, mas vou fazer uma divulgação sistemática aqui dessa bela idéia do Olavo de Carvalho de abrir o site Seminário de Filosofia. Por uma bagatela é possível ter acesso às aulas em vídeo, áudio e apostilas.
Quem já fez aulas presenciais ou pôde vê-las em vídeo ou leu os trabalhos escritos do Olavo sabe a importância do trabalho e de poder aprender e estudar a partir dele.
Então, corram lá. E estudem, meus caros, estudem.
No commentsMachado e Borges? Antonio Fernando Borges já apresentara os dois juntos

Ainda na Folha:
abaixo o modernismo paulista!
O crítico gaúcho Luís Augusto Fischer aproxima Machado e Borges, sobre os quais lança livro, e ataca a vanguarda de Mário e Oswald de Andrade
RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCALRio de Janeiro e Buenos Aires se encontraram em Porto Alegre. A síntese “geográfica” e intelectual não acontece num conto de Jorge Luis Borges, mas em um texto de que o autor argentino é personagem. Acaba de sair “Machado e Borges”, publicado pela gaúcha Arquipélago Editorial. Nele, Luís Augusto Fischer, 50, professor de literatura brasileira na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), traça relações entre os contextos de produção e a forma literária de suas obras. Mas e o modernismo paulista? O ansioso leitor, autor da pergunta, talvez prefira saltar os próximos dois parágrafos, que lhe parecerão inúteis. Borges e Machado de Assis, para Fischer, são grandes e decisivos porque conseguiram, melhor do que qualquer autor ou movimento literário, solucionar sua condição de escritores periféricos, embora herdeiros da tradição européia. Nem recusaram, nem aderiram ao centro, resolvendo de modo “dialético” o problema imposto aos escritores da América. E com seu realismo “desfocado”, encontraram forma para momentos de crise que os dois países atravessavam quando atingiram a maturidade. Nisso Machado, no Brasil, encontrou solução superior à do “modernismo paulista”, que, de acordo com Fischer, seguiu nacionalista nos temas e estritamente vanguardista na forma, recusando e aderindo ao centro, sem encontrar a síntese de que foram capazes Borges e Machado. Na entrevista a seguir, Fischer também questiona a posição central, “excessiva”, que o modernismo ainda ocupa “na definição que se faz da literatura e da cultura brasileira no século 20″.
Tudo muito bem, tudo muito bom, mas cadê os créditos ao escritor Antonio Fernando Borges que já fizera o encontro dos dois escritores no Memorial de Buenos Aires?
Recomendo, ainda, a leitura da palestra de Bruno Tolentino, reproduzida na edição da excelente Dicta&Contradicta (espero amanhã escrever sobre a revista, que recebi e já li e reli), em que ele fala de como o Brasil, mesmo sem a poderosa herança literária que a Argentina ganhara da Espanha, tivera Machado antes de Borges.
No commentsElites, elites, quantos crimes são cometidos em teu nome?

Pareto e sua barba bem aparada
Muito bom o texto de Antonio Cicero hoje na Folha:
A elitização brasileira
O Brasil, diz Darcy, é “um país que não deu certo, por culpa não do seu povo, mas das elites”
NÃO SOU o primeiro e certamente não serei o último a criticar o abuso da palavra “elite” no Brasil. Como não fazê-lo? Em política, a imprecisão conceitual só serve aos oportunistas.
É sobretudo no vocabulário de quem se considera “de esquerda” que essa palavra costuma aparecer. Seu uso entre “soi-disant” marxistas resulta de um desleixo conceitual que mostra que nem mais eles levam a sério a teoria em que pretendem se basear.
O emprego da palavra “elite” na sociologia se estabeleceu a partir das obras de Vilfredo Pareto e de Gaetano Mosca. Sua pretensão era substituir o conceito marxista de “classe dominante”. Pareto afirmava que há, em toda sociedade, um estrato inferior e um estrato superior. O estrato superior constitui a elite, que é composta pelos indivíduos mais capazes. Segundo Mosca, o domínio da minoria sobre a maioria se explica pela organização da primeira, que é composta por indivíduos que possuem um atributo, real ou aparente, altamente valorizado pela sociedade em que vivem.Ao criticar as “teorias da elite”, os marxistas atacaram tanto a pretensão, nelas embutida, de que a estratificação social seja supra-histórica, universal, eterna, quanto o fato de que elas desviam atenção do fundamental, que é a base econômica da sociedade.
Suponho que os marxistas brasileiros tenham ignorado essas e outras críticas em conseqüência, pelo menos em parte, da influência que sofreram de políticos e intelectuais não-marxistas, durante a luta contra a ditadura. Entre esses, destaca-se, por exemplo, o antropólogo Darcy Ribeiro, que não hesitava em falar da “maldade” da elite: “velha elite, feita de filhos e netos de senhores de escravos calejados na maldade; de ricaços descendentes de imigrantes que olham de cima, com desprezo, a quem não enricou também; e sobretudo desta casta de gerentes das multinacionais, só leais a seus patrões”.
Segundo essa perspectiva, é por culpa de uma elite má que temos os problemas que temos. O Brasil, diz Darcy, é “um país que não deu certo, por culpa não do seu povo, mas das elites”. “Maldade”, “culpa”: é fácil entender que também os teólogos da libertação -católicos- tenham se reconhecido nessa linguagem, excelente catalisadora de todo ressentimento difuso.
Tal tipo de “explicação” psicologista da realidade social é absolutamente incompatível com o pensamento de Marx, em que não entram em jogo “culpas” ou “maldades”. Para Marx, a relação das diferentes classes sociais entre si é determinada em primeiro lugar pelo caráter das relações de produção vigentes na formação sócio-econômica em consideração.De todo modo, não é difícil entender como, paradoxalmente, a vulgarização da teoria das elites -que havia sido introduzida na sociologia para enfrentar as teorias liberais e socialistas, e que era simpática ao fascismo- pôde dar subsídios exatamente para a execração das elites. É que, já que a dominação destas não se explica pela estrutura econômico-social, mas pela sua putativa superioridade, é concebível que essa “superioridade” se reduza ao maquiavelismo com que se supõe que elas submetem as massas, por meio da doutrinação, da violência, da intimidação, da intriga, da corrupção, do engodo: em suma, do “mal”.
Só a facilidade dessa inversão vulgar do sentido da teoria das elites já seria suficiente para evidenciar sua inanidade teórica. Mas isso não é tudo. Além de não ser capaz de explicar coisa nenhuma, a noção de “elite” é vaga demais para ter qualquer eficácia cognitiva.
Essa ineficácia ficou comicamente clara no ano passado, quando o apresentador de programa de televisão Luciano Huck, ao ter seu relógio roubado, escreveu um artigo na Folha, queixando-se da insegurança das cidades brasileiras. Uma enxurrada de cartas à redação o atacou, alegando que, pertencendo à elite, ele não tinha qualquer direito de se queixar. Uma delas foi do cantor Zeca Baleiro. No dia seguinte, uma leitora escrevia: “Lamentável o comentário dele sobre o texto de Luciano Huck -como se Zeca Baleiro não fizesse parte dessa elite”.
O fato é que, cada vez mais, também a classe média tem sido chamada de “elite” pela esquerda. Consequentemente, como as estatísticas indicam que o Brasil é cada vez mais um país de classe média, trata-se sem dúvida de um país em que, segundo a esquerda, quase todos fazem parte da elite. Será a pior elite do mundo, como muitos afirmam? Não sei; mas é sem dúvida a mais autoflagelante.
Já escrevi sobre o assunto nos seguintes posts: É tudo culpa das elites? E quem somos a elite?, Elites, literatura, silêncio e indiferença e Ainda a teoria das elites: na roda, Ortega y Gasset e Raymond Aron.
Saio agora de casa para encontrar um casal de amigos. Se voltar a tempo comento ainda hoje o texto.
1 commentA civilização reside na existência de indivíduos como Miguel Esteves Cardoso
Fiquei imensamente feliz com o feedback do post Miguel Esteves Cardoso, um homem civilizado no qual inseri uma entrevista que ele concedeu ao excelente historiador e professor Rui Ramos, autor do precioso livro Outra opinião. Ensaios de história, sobre Portugal. Além dos comentários e e-mails que recebi vários blogues portugueses reproduziram o vídeo ou linkaram para este blogue.
Uma das preocupações que tenho é apresentar os indivíduos e obras que admiro. Fazia isso com os brasileiros, numa tentativa de expor aqui um recorte do país que me interessa. Desde outubro do ano passado tenho feito o mesmo com Portugal. Miguel Esteves Cardoso é uma admiração antiga. Lembro de um amigo comentar no Rio, há uns bons anos, sobre um escritor português cujo livro ostentava glorioso na capa o título O amor é fodido. Pensei: nenhum escritor medíocre ou mediano ia correr o risco de batizar um livro com esse nome. Então, deve ser bom. O livro é ótimo!
Logo depois, consegui no sebo do Catete, perto da casa onde eu morava no Flamengo (ambos bairros vizinhos do Rio de Janeiro), o excepcional A causa das coisas. Quem ainda não conhece esse livro faça o que tiver que fazer para obtê-lo.
Eu só fui começar a descobrir a dimensão do MEC em Portugal, o que esse monumento intelectual representava para o país, numa conversa com o João Pereira Coutinho. E nesse quase um ano aqui em Lisboa fui verificando com prazer renovado o prestígio desse homem sobre o qual nunca ouvi uma palavra sequer que o desabonasse. Basta eu falar o nome do MEC numa conversa para perceber aquele maravilhamento, aquela quase epifania à menção do nome. Eu não exagerava quando disse no post anterior que o MEC “deixou há tempos de ser um indivíduo para se tornar uma instituição”.
A civilização, meus caros, reside na existência de indivíduos como Miguel Esteves Cardoso.
PS: Quando procurava na internet uma foto do MEC para ilustrar o post encontrei não só uma imagem de um trecho do vídeo do programa “O Portugal de…” como um texto qualificando o escritor e jornalista português de “instituição”. Quando escrevi meu post anterior não havia lido a referência, que fica aqui registrada em deferência ao blogue do Luis Royal. Em dezembro de 2006 Royal se antecipara a escrever esse achado que eu julgava meu. Acontece.
4 commentsCarne viva é o romance de um desiludido

Sim, Carne viva é o romance de um desiludido. Os personagens são espíritos agonizantes, frívolos, materialistas e obscenos que têm em comum um traço singular de desilusão. Talvez todos sejam um só. O grande personagem de Carne viva, sim, é a desilusão.
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Paulo Francis fazia questão de expressar seu descontentamento presente. Havia em seus textos e no que dizia na TV um sabor de ruína dos tempos, de uma melancolia de incompletude por tudo o que havia vivido quando jovem num Rio de Janeiro estimulante que ele viu se diluir antes de migrar para os Estados Unidos em 1971. A empolgação pela América também foi se esfacelando, apesar do sempre manifestado prazer de morar no centro do mundo e tudo aquilo que estava ao seu alcance.
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Carne viva é a representação literária daquele desalento que Francis expressou na frase “Eu me sinto tecnicamente morto”. E não era só o incômodo, o mal-estar, a indisposição com a sociedade de massas, segundo ele, filistina. Era chegar numa altura da vida e descobrir que a ambição individual não foi acompanhada pelos demais indivíduos. Num homem de grandes expectativas o futuro que se converte num presente de desejos irrealizados provoca uma desilusão monumental. Esse sentimento era mais um paradoxo na vida do homem contraditório, do ateu que, embora amasse a vida, não via saídas senão a morte em vida. Francis converteu-se num cadáver insepulto que fazia troça de si mesmo. Morrer não seria uma catarse, mas a extinção antecipada da entropia.
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Os ricos, frívolos e revolucionários personagens de Carne viva são a dimensão caricatural de como Francis via e processava em seu espírito a classe alta com a qual conviveu nos tempos do Rio de Janeiro. Eis um dos grandes problemas literários do romance: é fácil identificar nas pessoas reais os traços caricatos e vê-los dessa forma em suas vidinhas; na literatura, a caricatura só pode ser usada como efeito, não como substância do personagem. Se é uma delícia o ritmo do romance; um prazer a leitura de muitos parágrafos; uma satisfação identificar nas frases o histrionismo da verve jornalística; Francis naufragou no esforço de converter em literatura os ricos cariocas e aquela geração que transformou o maio de 1968 em França no veneno que corrompeu jovens e senis com a estupidez da revolução rumo ao nada.
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O escritor deve fazer uma escolha substantiva ao elaborar sua história: os personagens são ou não verossímeis. Combinar personagens verossimilhantes com personagens implausíveis só se transforma em literatura de boa qualidade na mão de gênios. Na mão de escritores medianos tal recurso manifesta-se como vício. Francis junta às vezes numa mesma cena personagens perfeitamente plausíveis, que dialogam deliciosamente, com outros inverossímeis, que falam como se fosse o Francis comentarista cultural da coluna Diário da Corte. O deslocamento de um dos dois é percebido imediatamente até por leitores não-treinados.
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A estrutura de Carne viva impressionou-me; eu que estava acostumado e acossado com a epilepsia literária dos Cabeças (Cabeça de papel e Cabeça de negro). Há uma coerência no vai-e-vem da história, na passagem e volta do tempo, que não imaginei que Francis usaria como recurso depois das experiências dos dois romances anteriores. Achei que, como Joyce, Francis seria ainda mais extremo ao testar uma certa deformidade radical de estilo e forma. As resenhas e matérias sobre o livro não informaram se essa estrutura foi uma escolha ou uma concessão aos que leram os manuscritos e sugeriram alterações. De um jeito ou de outro o que importa é o resultado. E, nesse aspecto, Francis foi bem-sucedido.
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A história se desenvolve entre Brasil e França, Rio e Paris. É coerente que Francis tenha optado por rechear o romance com expressões e frases no idioma de Villon, o que também provoca um saudável desconcerto para os leitores de suas colunas manifestamente anglófilas.
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Um conselho para quem ainda for ler o livro: ignorem, rasguem ou joguem fora o último capítulo “Guerra e paz” (referência óbvia ao personagem Guerra e ao título do livro de Tolstoi). Para usar uma frase do Francis sobre o livro Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman: o final é xaroposo, parece último capítulo de novela da Globo. É como se Francis estivesse cansado do livro e quisesse livrar-se de uma vez da feitura da obra. É um final imprevisível no mal sentido: era inconcebível imaginar Francis tão descuidado, monótono e banal ao encerrar o romance.
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Gostei de ler o livro. Até para desgostar. Mas, tal qual seus personagens e autor, fui inoculado no fim da leitura com o veneno da desilusão. Não pela vida, pelas coisas, pelas pessoas, mas pelo jornalista que, tendo falhado em vida nas tentativas de ser um grande escritor, deixou uma obra que, lançada à sua revelia e sem o devido apuro, revela que poderia ter feito um bom romance, mas não o fez. Assim como as palavras dos mortos se modificam nas entranhas dos vivos (Auden), a publicação da obra de um escritor morto modifica a visão que temos de seu talento. Para o bem e para o mal.
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