sábado, 24 de janeiro de 2015

50 anos sem Winston Churchill


No início de janeiro, terminei a leitura da biografia de Winston Churchill escrita por Boris Johnson, cuja leitura recomendo vivamente. Hoje faz 50 anos de sua morte.

Como costuma acontecer em datas redondas, a imprensa inglesa destacou a efeméride. No Brasil, não encontrei uma linha sequer nos principais jornais (Folha, O Globo e Estadão).

(No domingo, dia 25 de janeiro, a Folha se redimiu em grande estilo com um texto do João Pereira Coutinho publicado abaixo).

Eis os principais registros:

O guerreiro das palavras: Churchill, o ator que liderou o Reino Unido, de João Pereira Coutinho.- Recordando Winston Churchill, de João Carlos Espada.
"Je suis Churchill", de João Pereira Coutinho.
“We live as free men, speak as free men, walk as free men because a man called Winston Churchill lived” (Spectator).
Were these lines really uttered by Churchill? (The Telegraph).
How Britain honoured Churchill (The Telegraph).
Boris Johnson: Churchill embodied the greatness of Britain (The Telegraph).
Um leopardo, por Paulo Portas.

PS: Conheço bem as vicissitudes, equívocos e defeitos, enfim, o lado nada abonador, para usar um eufemismo, de Churchill, pois que dispenso reparos a macular esta homenagem.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Podcast do Instituto Mises Brasil: entrevista com Margaret Tse


A entrevistada de hoje no Podcast do Instituto Mises Brasil é a empreendedora Margaret Tse, que tem uma longa trajetória na defesa e na divulgação das ideias da liberdade no Brasil, tendo desenvolvido um importante trabalho como presidente do Instituto Liberdade (Rio Grande do Sul).

Diretora da Mont Pelerin Society, Margaret contou a sua história dentro do movimento liberal e falou sobre a origem empresarial da família, que fugiu da China para escapar do regime comunista de Mao Tse-tung.

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A música da vinheta de abertura é o Cânone do compositor alemão Johann Pachelbel executada pelo guitarrista Lai Youttitham.

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Todos os Podcasts podem ser baixados e ouvidos pelo site, pela iTunes Store e pelo YouTube.

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Recordando Winston Churchill

Texto do professor João Carlos Espada no jornal português Público:

Recordando Winston Churchill

A 24 de Janeiro de 1965 a BBC anunciava a morte de Churchill. Mais de 320 mil prestaram-lhe homenagem

No próximo sábado, 24 de Janeiro, passarão 50 anos sobre a morte de Winston Churchill, a 24 de Janeiro de 1965. Nesse dia, pouco depois das 8h da manhã, a BBC anunciava a morte de Churchill, com 90 anos. Menos de meia hora depois, uma multidão começava a reunir-se junto à residência londrina de Churchill, em Hyde Park Gate. Durante três dias, 321.360 pessoas (segundo os registos da BBC) prestaram homenagem ao antigo primeiro-ministro, que jazia em câmara-ardente em Westminster Hall — uma honra que não era concedida a um estadista britânico desde a morte de William Gladstone, em 1898.

A Rainha tinha dado instruções para que o funeral de Churchill fosse rodeado da grandeza compatível com o seu papel na vida britânica. Sob o título “Operation Hope Not”, os preparativos para o funeral de Churchill estavam em estudo desde que este sofrera um acidente cardíaco em 1953, quando ainda era primeiro-ministro.

No dia do funeral, a 30 de Janeiro, o Big Ben deu as horas até às 9h45 da manhã, permanecendo em silêncio durante o resto do dia. Uma longa procissão iniciou o percurso entre Westminster e St. Paul’s Cathedral, a obra-prima de Christopher Wren que resistira a 28 bombardeamentos nazis. Cento e vinte cadetes da Royal Navy acompanhavam a carruagem fúnebre, recordando a dupla passagem de Churchill pelo Ministério da Marinha (1911-15; 193940). Militares de 18 unidades integravam a procissão, marchando com as suas espingardas viradas para baixo. Uma centena de bandeiras eram transportadas por antigos combatentes das resistências francesa, dinamarquesa, norueguesa e holandesa.

O número de chefes de Estado e de governo que assistiram ao serviço religioso em St. Paul’s Cathedral não seria ultrapassado até ao funeral do Papa João Paulo II, em 2005: 112 países estiveram representados, incluindo seis monarcas, seis presidentes e 16 primeiros-ministros. Apenas o Governo chinês recusou abertamente fazer-se representar.

Durante esse dia, centenas de milhares de pessoas aguardavam em silêncio, ao longo do caminho-de-ferro entre a Estação de Waterloo, em Londres, e a de Woodstock, a passagem do comboio especial que transportava Churchill para o pequeno Cemitério de Bladon, junto ao Palácio de Blenheim. Tinha sido aqui, no imponente palácio dos duques de Marlborough desde 1707, que Winston Churchill nascera, a 30 de Novembro de 1874.


O mundo prestava homenagem ao homem que, em Maio de 1940, assumira a liderança da resistência britânica e europeia ao nazismo triunfante no continente europeu. Esse homem tinha passado uma década, entre 1929 e 1939, em total isolamento político na sua bancada conservadora no Parlamento britânico, denunciando as ideologias nacionalsocialista e comunista, condenando os esforços apaziguadores dos governos do seu próprio partido.

Em 1945, depois de vencer a guerra, perdeu as eleições e passou tranquilamente à oposição. Em 1946, em Fulton, no Missouri, na presença do Presidente Truman, fora o primeiro a denunciar a “Cortina de Ferro” que o imperialismo soviético fizera descer sobre a Europa central e oriental.

Regressaria ao lugar de primeiro-ministro do Reino Unido em 1951, resignando por razões de saúde em 1955. Mas fizera questão de permanecer no Parlamento, na bancada do seu partido conservador (que tinha abandonado, entre 1904 e 1924, a favor dos liberais) até 1964.

Neste ano de 2015, 50 anos depois da morte de Churchill, inúmeras iniciativas vão assinalar a efeméride, designadamente sob o patrocínio da International Churchill Society/Churchill Centre. Trata-se de uma instituição privada, que não recebe dinheiro dos contribuintes, com secções autónomas no Reino Unido, nos EUA, Austrália, Canadá, Islândia, Israel, Portugal e Nova Zelândia. Em Palácio de Blenheim, entre 26 e 30 de Maio próximo, celebraremos a memória de Churchill com uma conferencia internacional.

No Estoril Political Forum, de 22 a 24 de Junho, dedicado aos 800 anos da Magna Carta (1215-2015), o IEP-UCP acolherá James Muller, presidente do conselho académico do Churchill Centre, no jantar anual da Churchill Society of Portugal. Charles Moore, biógrafo autorizado de Margaret Thatcher, antigo director de The Spectator e The Telegraph, proferirá a palestra memorial Ralf Dahrendorf, em que Churchill será recordado e homenageado.

Nas próximas semanas, procurarei neste espaço revisitar alguns aspectos da filosofia política de Churchill. Tentarei identificar alguns dos principais ingredientes do seu firme comprometimento com a tradição ocidental da liberdade ordeira sob a lei.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O empresário do PT


Meu artigo publicado hoje no jornal O Globo sobre Eike Batista, o empresário do PT, retratado no ótimo livro "Tudo ou Nada - Eike Batista e a verdadeira história do grupo X" (Editora Record), da jornalista Malu Gaspar.

O multiculturalismo como inimigo da civilização

Meu artigo publicado hoje no jornal Gazeta do Povo (Curitiba):

Há pelo menos três certezas inabaláveis em relação aos atos terroristas na França: os terroristas eram cidadãos franceses muçulmanos; o Charlie Hebdo é um pasquim com humor pior que o meu francês; os terroristas muçulmanos, não só os franceses, ganharam um discurso de justificação acusatória contra as vítimas elaborado pelos multiculturalistas ocidentais, esta espécie em vias de expansão.

É tanto curiosa quanto reveladora a semelhança da maioria dos discursos que condenou as mortes ao mesmo tempo em que relativizou o ato terrorista. Militantes do multiculturalismo e parte dos muçulmanos simpáticos aos jihadistas não fizeram muito esforço para afirmar que os cartunistas haviam ido longe demais no desrespeito ao Islã e que o terrorismo era uma reação compreensível diante do histórico de ações cometidas contra os países muçulmanos pelos governos de países ocidentais.

No núcleo das tentativas retóricas de desvincular a religião muçulmana do terrorismo islamita, o que acabou se vendo foi uma desresponsabilização implícita a partir do uso de termos e expressões que rapidamente entrarão no vocabulário dos islamitas radicais.

E, em vez de o debate concentrar-se no fenômeno do terrorismo islamita, foi estrategicamente deslocado para a vitimização dos muçulmanos que vivem na Europa diante da possibilidade do fortalecimento do discurso anti-islamita e anti-imigração pelos “partidos de extrema-direita”. Os europeus, vítimas diretas do terrorismo, foram colocados em segundo plano.

Eis a essência da ideologia multiculturalista: usar as minorias como instrumentos de perseguição da cultura local tradicional, ela mesma fruto da bem-vinda diversidade cultural construída e desenvolvida desde a formação das sociedades e de suas nações – o que, obviamente, não inclui os terroristas. Não é à toa que, segundo Theodore Dalrymple, em A Vida na Sarjeta, “na imaginação empobrecida dos multiculturalistas, todos os que não pertencem, por nascimento, à cultura predominante estão empenhados numa luta conjunta contra a tirania opressiva e ilegítima”.

O multiculturalismo, lamento dizer, não é o mero reconhecimento e proteção das diferentes culturas num ambiente de tolerância e diversidade. É um projeto político-ideológico para lidar com a diversidade cultural e religiosa a partir do reconhecimento legal dos “direitos dos grupos diferenciados”, na expressão de Will Kymlicka, que são juridicamente privilegiados em detrimento da sociedade local, incluindo as minorias sem representação articulada.

Na Europa e nos Estados Unidos, o multiculturalismo converteu-se numa poderosa arma de ideólogos e representantes das minorias organizadas contra a cultura local, o que significa, contraditoriamente, um ataque contra a diversidade cultural que supostamente deveria promover. O discurso multiculturalista tende a converter imigrantes em inimigos e minar a cultura local, desenvolvida com o acréscimo de diferentes culturas, a ponto de fragilizá-la ao longo do tempo e torná-la irrelevante, caso não haja uma defesa vigorosa e adequada de sua importância.

A aplicação política da concepção multiculturalista é, em última instância, “uma revolta contra aquelas tradições políticas, sociais e intelectuais que definem o esforço humanístico”, diz Roger Kimball em Radicais nas Universidades. Tal discurso foi construído por intelectuais ocidentais e disseminado com sucesso nas universidades. Dois de seus mais célebres expoentes são Herbert Marcuse e Louis Althusser, ambos marxistas representantes de uma categoria tão adequadamente explicada por Roger Scruton em seu Pensadores da Nova Esquerda.

Entre os maiores adversários da integração das minorias em diversos países, incluindo a dos islamitas moderados, estão os multiculturalistas profissionais, que conquistam reconhecimento público e profissional criando ou incitando conflitos artificiais que deveriam ser resolvidos com integração. Uma integração que depende, inicialmente, de um sentido de dever e de responsabilidade dos imigrantes para respeitar e enriquecer a cultura do país onde decidiram construir as suas vidas.

Nas mãos dos multiculturalistas – muitos deles entrincheirados nas universidades e nos meios de comunicação –, porém, as minorias continuarão a ver e a ser vistas como elementos de conflito, ameaça e desagregação, não como agentes de um mutuamente benéfico processo de inclusão e engrandecimento cultural. Dalrymple é preciso: “Os imigrantes enriquecem – e enriqueceram – nossa cultura, mas o fazem por adição, e não por subtração ou divisão”.

O multiculturalismo e o terrorismo são, hoje, dois dos grandes inimigos da civilização.