sexta-feira, 27 de março de 2015

Podcast do Instituto Mises Brasil: entrevista com Paulo Cruz


No Podcast do Instituto Mises Brasil​ dehoje uma entrevista imperdível e bombástica com o professor de filosofia PauloCruz​ sobre racismo e instrumentalização ideológica do negro brasileiro pela esquerda.

Paulo, ele próprio negro e tantas vezes vítimas de racismo, fez uma análise demolidora das origens do problema que ajudam a explicar o comportamento e o discurso de integrantes do movimento negro como aqueles que na semana passada interromperam uma aula na USP, destilaram os chavões ideológicos de praxe e insultaram os alunos da sala.

Segundo o professor, “está mais do que provado que o marxismo, e não só no Brasil, utiliza os negros como um discurso para fragmentar a sociedade seguindo o lema dividir para conquistar”. A entrevista concedida por Paulo a este podcast vai te fazer olhar para o problema do racismo e de seu uso ideológico de uma maneira completamente diferente da que se vê nos debates públicos.

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A música da vinheta de abertura é o Cânone do compositor alemão Johann Pachelbel executada pelo guitarrista Lai Youttitham.

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segunda-feira, 23 de março de 2015

A utopia política é o ópio dos intelectuais

Texto de minha autoria publicado no site do Instituto Mises Brasil:

A ideia moderna do intelectual engajado e fazendo parte de um grupo especificamente identificado nasceu na França na época do Caso Dreyfus. Sem compor a estrutura de poder de sua sociedade, ele emitia suas opiniões supostamente em nome dos mais elevados princípios éticos e intelectuais, e não de acordo com as verdades oficiais, nos conta Eric Cahm em seu livro The Dreyfus Affair in French Society and Politics.

Durante o século XIX, os intelectuais começaram a entrar e a integrar as instituições que compunham a estrutura de poder exercendo as funções de especialistas e professores. E foi uma parcela desses intelectuais que alimentou e difundiu diversos tipos de utopias apresentadas de forma estruturada, desestruturada ou simplesmente delirantes.

A utopia não é uma exclusividade dos intelectuais, mas o pensamento político utópico e a sua tentativa de realização histórica são uma espécie de monopólio natural de uma numerosa e influente parcela desse grupo.

Suas ideias políticas utópicas estruturam desde a concepção do poder centralizado até a formulação das decisões e ações necessárias para submeter os membros da sociedade onde se pretende desenvolver um projeto de engenharia social com o objetivo de redimir ou aperfeiçoar a condição humana segundo uma política de perfeição e rumo a um futuro radiante e livre dos sofrimentos, restrições e carências do presente e do passado.

Talvez o exemplo histórico mais grandioso da tentativa de implementação de uma utopia política baseada numa política de perfeição tenha sido o período do Terror levado a cabo pelos Jacobinos durante a Revolução Francesa. O estado foi estruturado de forma a permitir que uma determinada concepção de poder centralizado se desenvolvesse e se deslocasse de forma permanente para manter a revolução em progresso e impedisse as eventuais reações.

Um poder móvel é sempre mais difícil de se combater do que um poder estático, cuja manutenção e equilíbrio acabam por ser seu calcanhar de Aquiles.

A utopia jacobina engoliu seus próceres porque é próprio do sistema se retroalimentar mediante a violação ou eliminação sistemática também de seus agentes. E é interessante notar, obviamente com a devida distância histórica e com o cotejo analítico dos diversos relatos e estudos realizados, a grandiosa ingenuidade dos utópicos ao ambicionar ter sob controle, desde o início, toda a complexa cadeia não-linear de eventos suscitados pelas profundas mudanças morais, sociais, políticas, econômicas impingidas.

Os raros líderes utópicos que não foram tragados pela praxis do movimento deram sorte ou rapidamente perceberam como se movimentar nas entranhas da besta que ajudaram a criar.

A ingenuidade de Robespierre, um intelectual e homem de ação, podia ser dimensionada pela sua ambição desmedida. De advogado pacifista, passando por revolucionário inflamado até se auto coroar líder do Ser Supremo, Robespierre perdeu o controle bem antes de perder a cabeça sob uma lâmina afiada.

Por mais que se apresentem apenas como homens de ideias, e assim expõem um insolúvel oximoro, uma parcela numerosa de intelectuais políticos e econômicos constroem mundos utópicos na expectativa de vê-los instituídos e repete a utopia de Robespierre, mesmo que desconheçam, ignorem ou rejeitem a herança parente.

O sofrimento, os males, as violências que integram a sua política de perfeição não são consequências não-intencionais de ideias virtuosas, mas a estrutura interna de um método de ação embalado por uma teoria que muitas vezes é apresentada como uma simpática solução para problemas sérios e reais. Solucionar tais problemas não é a finalidade para esses intelectuais, de esquerda ou não, que buscam a implementação da utopia para substituir os antigos pelos novos problemas, nunca admitidos como tais.

Há, de fato, uma operação para deslocar completamente o bom senso e o senso comum, para soterrar a tradição em nome de uma novidade progressista que conduzirá a humanidade a um excêntrico paraíso terreno. É flagrante a definição de um infame sistema de castas baseado na superioridade moral autoatribuída. O novo sistema utópico progressista é criado para operar sob o comando de uma elite superior composta por eles.

A tão propalada ideia de igualdade é completamente fraudulenta porque estabelece, desde já, dois níveis distintos de seres humanos, um superior e outro inferior. Este deve reconhecer sua inferioridade e transferir, como queria Rousseau, sua vontade individual para a vontade coletiva, um estratagema para diluir o poder e os direitos do indivíduo de forma a redimensionar hiperbolicamente o poder centralizado da elite integrada por aqueles intelectuais.

Os filhos de Rosseau também são netos de Robespierre; e a utopia política, o ópio dos intelectuais.

O ópio dos intelectuais

O termo "o ópio dos intelectuais" evoca dois outros: a primeira, de autoria de Raymond Aron, de que o ópio dos intelectuais era o marxismo[1]; a segunda, escrita por Karl Marx, dizia que a religião era o ópio do povo.[2]

Antes, porém, é necessário fazer um enquadramento teórico. Os estudiosos do fenômeno não chegaram a um consenso para estabelecer um conceito definitivo para a utopia. As definições utilizadas dependiam dos objetivos específicos de cada estudo. Eles concordavam, porém, que qualquer conceito deveria conter pelo menos um destes três elementos: forma, conteúdo e função. A posição que considero mais adequada à interpretação da utopia política, que classifico como revolucionária, é a de Ruth Levitas, para quem a melhor definição deveria ser capaz de incorporar forma, conteúdo e função.[3]

Há uma diferença entre utopia política revolucionária e utopia literária: o fato de que a versão revolucionária da utopia política não apenas descreve e prescreve uma sociedade ideal e perfeita, mas tem um projeto de poder para realizá-la e empreende todos os esforços nesse sentido.

Uma utopia literária não pretende nada além de ser uma descrição detalhada de uma sociedade ou de um mundo idealizado, e a sua forma e função praticamente definem um fim em si mesmos. Romances utópicos podem ser usados por utópicos revolucionários como base para suas ambições, mas não foram realizados, muito embora possam ter sido idealizados, com tal finalidade.

Uma utopia política revolucionária, por outro lado, elabora essa prescrição descritiva, que pode ser explicitamente detalhada ou estrategicamente pulverizada ou diluída de forma a esconder seus reais objetivos, como um plano de instituição de um tipo de regime controlado por uma determinada elite que se apresenta como a única habilitada a empreender aquele projeto de perfeição e a conduzir a sociedade rumo a um futuro ideal.

O filósofo húngaro Aurel Kolnai afirmou que a utopia era não apenas o perfeccionismo, mas, concomitantemente, a impostura do ideal de perfeição. Segundo Kolnai, o mundo utópico constituía, na verdade, um campo simplificado de perfeição no qual a sociedade era um organismo harmônico e os indivíduos eram classificados segundo uma hierarquia cientificamente organizada.[4]

Karl Marx, por exemplo, tentava esconder o caráter utópico de seu pensamento político sob um verniz científico (o cientificismo versus o utopismo de Marx é discussão para outro artigo).

Intelectuais à esquerda e à direita manifestaram suas utopias políticas ao longo da história de forma mais ou menos articulada e esquemática. Os bem-sucedidos foram justamente aqueles que, unidos a algum movimento ou grupo, conseguiram que suas ideias fossem usadas como programas de um projeto de poder.

Muitos desses intelectuais utópicos sabiam exatamente quais seriam as consequências intencionais de suas ideias e assumiam plenamente a responsabilidade pelas consequências não-intencionais. Alguns poucos, mesmo que professassem algum tipo de boa-fé, preferiam ignorar os resultados daquilo que projetavam para toda uma sociedade em nome de um suposto bem comum, que desconsiderava os modos de vida e os indivíduos que a compunham.

Ambos combinavam um sentido de superioridade moral com o monopólio da virtude. Estavam tão inebriados com a própria bondade e excitados com o sentimento de missão a ser cumprida que fariam qualquer coisa para realizar o projeto de perfeição.

O projeto de perfeição

Tal projeto de perfeição política é alicerçado numa utopia revolucionária que sustenta um projeto de construção futura de uma sociedade ideal e perfeita. Os utópicos consideram legítimo, sob as perspectivas política e moral, utilizar todos os meios e recursos necessários, incluindo a violência, para realizar este projeto. Só assim, acreditam, será possível atingir a plenitude da felicidade, do bem-estar, do progresso, da satisfação dos desejos, e o fim de todos os sofrimentos e necessidades insatisfeitas, ou seja, um estado ideal de perfeição.

A crença de que a política é o instrumento mais adequado para perseguir o estágio ideal de perfeição, e assim com poder para redimir a natureza humana de suas falhas que inviabilizariam o projeto, parte da hipótese utópica segundo a qual todas as questões genuínas (como a busca pela sociedade perfeita do futuro) têm apenas uma resposta correta.

Isaiah Berlin observou que o argumento utópico se desenvolvia no sentido de que a inexistência de uma única resposta correta significaria que todas as questões apresentadas não eram genuínas. De forma complementar, era fundamental que todos os fundamentos da resposta correta fossem verdadeiros porque todas as outras respostas possíveis se baseavam numa falsidade.[5]

Essa estrutura de pensamento permite converter a utopia política em um modelo teórico ficticiamente perfeito que não admite contestação porque qualquer crítica aos seus fundamentos é refutada com a acusação de que o crítico não formulou uma questão genuína e, por isso, não alcançaria a única resposta correta existente.

A defesa da ideia não se dá mediante a força intrínseca dos seus fundamentos, mas por uma forma peculiar de reacionarismo, que tenta destruir seus críticos mediante a desqualificação sistemática dos argumentos contrários, não pelo que apresentam, mas sim pelo que não expõem, em resumo, pela acusação da inexistência de uma questão genuína.

A ideia do tempo na utopia política é bastante peculiar e importante. Quando menciono que o projeto de perfeição é um projeto de futuro é porque a promessa faz parte da estrutura retórica e da necessidade de manter o objetivo final em progresso, e não efetivamente sendo realizado, mesmo que gradualmente. Ao ver a si mesma como a realização da perfeição, a utopia política funciona como se sua existência como ideia prescindisse de uma realização material que efetivamente trouxesse a felicidade aos indivíduos.

Realizar o projeto extinguiria a utopia e, por sua vez, aboliria aquele tipo de poder extremamente concentrado da elite política revolucionária. Ou seja, realizar a utopia significaria o seu próprio fim e, por consequência, o fim dos seus artífices. E não podemos esperar que os agentes da utopia atuem de forma consciente para extinguir aquilo que lhes garante e preserva a existência.

A permanência no tempo da promessa utópica permite que o poder central tenha controle sobre os acontecimentos, direcionando-os, e, principalmente, se mantenha no comando de todos os procedimentos e processos desse work in progress.

Em sua tese de doutorado sobre a política de perfeição, na qual estuda Isaiah Berlin e Edmund Burke, o professor e colunista da Folha de S. Paulo, João Pereira Coutinho, enquadra a utopia como uma realidade estática que prescinde do futuro porque "ela própria, na sua intocável perfeição, concilia o passado, o presente e o futuro. A utopia não deseja o melhor possível porque ela própria é, desde logo, o melhor e o possível".[6]

Esse tipo de mentalidade se retroalimenta na sua não-realização, o que estabelece, finalmente, um paradoxo extremo: a retórica política utópica é fundamentada na transformação prática e efetiva do mundo de forma a maximizar e distribuir os benefícios e privilégios a cada um dos indivíduos, mas a sua realização, porém, converteria a utopia em qualquer outra coisa que não ela própria, o que faria ruir os fundamentos estruturais intelectuais e expor aquilo o que originariamente é: um poderoso instrumento de ilusão, fraude e falsificação.


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[1] Raymond Aron. "O Ópio dos Intelectuais". Brasília: Editora da UnB, 1980.

[2] Karl Marx. Introduction in "A Contribution to the Critique of Hegel's Philosophy of Right". Publicado no jornal Deutsch-Französische Jahrbücher em 7 de fevereiro de 1844.

[3] Ruth Levitas. "The Concept of Utopia", 179.

[4] Aurel Kolnai. "Privilege and Liberty and Other Essays in Political Philosophy", 124.

[5] Isaiah Berlin, "The Decline of Utopian Ideas in the West", in The Crooked Timber of Humanity, 24.

[6] João Pereira Coutinho, "Política e Perfeição: Um Estudo sobre o Pluralismo de Edmund Burke e Isaiah Berlin", (Tese de Doutoramento, Universidade Católica Portuguesa, 2008), 272.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Podcast do Instituto Mises Brasil: entrevista com Patrícia Bueno


No Podcast do Instituto Mises Brasil de hoje eu converso com Patricia Bueno, mestre em Direito Político e Econômico que recentemente defendeu a dissertação de mestrado “Função social da propriedade rural. do direito de propriedade e seu histórico. da reforma agrária. questões polêmicas”.

Nesse trabalho acadêmico, Patrícia apresentou uma perspectiva nada usual da reforma agrária, questionando os fundamentos ideológicos e as bases empíricas que sustentam a visão sobre o tema. Segundo ela, “a nossa reforma agrária foi feita em cima de mentiras”.

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A música da vinheta de abertura é o Cânone do compositor alemão Johann Pachelbel executada pelo guitarrista Lai Youttitham.

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“Esquerda Caviar” em Portugal


Está disponível hoje nas principais livrarias de Portugal o livro “Esquerda Caviar” (Alêtheia Editores), do Rodrigo Constantino.

Em seu blog no site da revista Veja, Constantino publicou a breve apresentação do livro que escrevi para os leitores portugueses:
O caviar é constituído pelas ovas do esturjão. Até o século XVIII na Rússia, o peixe era comida de gente pobre porque muito barato. Nos Estados Unidos do século XIX, também custava pouco e fazia parte da alimentação dos mais humildes, mas a pesca intensiva colocou o esturjão em risco de extinção e o caviar, uma vez elevado à condição de fina iguaria, passou a valer tanto quanto o ouro. Hoje, o mais consumido (e caro) no mundo é o “caviar negro” extraído de três espécies de esturjão encontradas no Volga e no extremo oriente da Rússia, país que é um dos maiores produtores e que estatizou a pesca (e o caviar) logo após a revolução de 1917. Comunista também comia (e come) ovas do esturjão. 
O caviar, portanto, tornou-se símbolo de luxo gastronômico. E como a história também se repete como paródia, calhou de as ovas do esturjão servirem para qualificar a contradição entre o discurso e a prática de pessoas que, do conforto de suas conquistas materiais, fazem o elogio da pobreza e defendem ideologias, como o socialismo e o comunismo, que combatem a prosperidade que as beneficia. Na Rússia comunista elas não teriam propriedade nem dinheiro para o caviar. 
Este livro preciso do economista e escritor brasileiro Rodrigo Constantino é uma crítica vigorosa contra a esquerda caviar que, no Brasil e em várias partes do mundo, é uma espécie em vias de expansão, ao contrário do esturjão. Em Portugal não é diferente: a esquerda caviar também é farta e bem nutrida, com amplo espaço nos media tradicionais, na imprensa cor de rosa e na política formal. 
Com a bem-vinda edição da Alêtheia Editores, e prefácio arguto do João Pereira Coutinho, os portugueses poderão conhecer os argumentos do Rodrigo Constantino a respeito das origens da esquerda caviar e de que maneira o excêntrico fenômeno se manifesta em várias dimensões da vida social na tentativa de conquistar o monopólio das virtudes – assim como os revolucionários russos monopolizaram o caviar. 
Certamente este livro, que é bestseller no Brasil, servirá de guia para os leitores portugueses e irritará muitos daqueles que compõem a esquerda caviar de Portugal.

quinta-feira, 19 de março de 2015

"Menos Marx, mais Mises" nas manifestações

Na revista Foreign Policy:

"Protesters chanted against Rousseff and the PT’s left-wing policies (...) waved placards calling for “Less Marx, more Mises,” citing the late Austrian economist Ludwig von Mises, whose work is influential in libertarian circles."

E aqui o Podcast do Instituto Mises Brasil que gravei com Caio Santiago e Lucas Nutels, responsáveis pela disseminação da frase "Menos Marx, mais Mises".