sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Podcast do Instituto Mises Brasil: desafios e oportunidades


Passada a eleição presidencial de 2014, o Podcast do Instituto Mises Brasil analisa o cenário político brasileiro com a finalidade de debater os principais desafios e oportunidades para os liberais e Austríacos, especialmente para as instituições, neste momento da história nacional.

Participaram da conversa Helio Beltrão (presidente do IMB), Ubiratan Jorge Iorio (diretor Acadêmico do IMB e editor-Chefe da MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia), Alex Catharino (gerente editorial da MISES) e Rodrigo Saraiva Marinho (presidente do Instituto Liberal do Nordeste).

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

É Realizações lança "Pensadores da Nova Esquerda", de Roger Scruton


Ótima (e exclusiva) notícia editorial deste blog: a É Realizações lança em novembro a tradução do excelente livro “Pensadores da Nova Esquerda” (336 páginas, R$ 59,90), de Roger Scruton. A edição conta com prefácio do crítico literário Rodrigo Gurgel que expõe a importância da obra também para o ambiente intelectual e político brasileiro.



SOBRE A OBRA: Publicado pela primeira vez na Inglaterra em 1985, este volume reúne uma série de ensaios que Roger Scruton escreveu para The Salisbury Review e para The Cambridge Review. Trata-se de análises surpreendentes da obra de catorze dos pensadores mais influentes do movimento que veio a ser conhecido como a Nova Esquerda. São eles: E. P. Thompson, Ronald Dworkin, Michel Foucault, R. D. Laing, Raymond Williams, Rudolf Bahro, Antonio Gramsci, Louis Althusser, Immanuel Wallerstein, Jürgen Habermas, Perry Anderson, György Lukács, J. K. Galbraith e Jean-Paul Sartre.
Antes de tratar destes autores individualmente, no ensaio de abertura Scruton procura esclarecer o que é a esquerda e por que escolheu abordar estes autores. Ao final, ele também explicita a perspectiva subjacente a suas análises, de maneira a deixar claro de que ponto de vista partem as críticas feitas.Esta edição brasileira conta com a breve e precisa apresentação do professor Rodrigo Gurgel, que procura evidenciar o quanto esta obra pode ser esclarecedora também para o público brasileiro e ressalta que “este livro foi elaborado na contramão do discurso hoje dominante”. SOBRE O AUTOR:
 Roger Scruton é escritor, filósofo e comentarista cultural. Especialista em estética, dedica-se com especial atenção à música e à arquitetura. No debate cultural e político contemporâneo, é considerado um dos expoentes do pensamento conservador e um grande polemista. Tem vasta obra publicada na imprensa sobre questões políticas e culturais. É fellow da Royal Society of Literature e da British Academy.









 OUTROS LIVROS PUBLICADOS PELA É REALIZAÇÕES:
 A Política da Prudência, de Russell Kirk.Os Intelectuais e a Sociedade e Conflito de Visões, de Thomas Sowell.As Ideias Têm Consequências, Richard Weaver.Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental, de Andrei Plesu.Beleza, de Roger Scruton.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Reflexões sobre a eleição presidencial no Brasil de 2014

- O PT e a sua candidata ganharam a eleição, mas não venceram a batalha política, mesmo tendo à disposição a máquina estatal, a profissionalização do aparelhamento e as décadas de militância e doutrinação ideológica. A prova foi a eleição apertada e a significativa quantidade de pessoas que achou que o melhor (para elas) era não votar. Se o PT e a sua candidata tivessem sido, de fato, os vencedores da luta política, o percentual de votos teria sido maior e os brasileiros que queriam demiti-los não teriam se mobilizado de forma tão intensa na campanha, mesmo não sendo eleitores do PSDB nem de Aécio Neves. Isto tudo é extremamente relevante.

- A presidente eleita e o seu governo saem enfraquecidos com o resultado das urnas, inclusive pelas conquistas da oposição nas cadeiras do Congresso e nos governos estaduais. Portanto, não têm legitimidade para enfiar goela abaixo do parlamento e dos brasileiros as propostas intervencionistas e antiliberais de praxe. Não ter legitimidade não quer dizer que não o farão. Significa que, se o trabalho for inteligente, essas ações podem ser neutralizadas. Mas não se pode dormir nem acreditar que a oposição formal faça o seu trabalho espontaneamente. Terá que ser provocada o tempo inteiro.

- Quem sai politicamente vitorioso da eleição é o brasileiro que voluntária e espontaneamente trabalhou para demitir um governo que não o representava, nem que para isto fosse preciso conceder a vitória a um candidato que também não o representava, mas que não encarnava uma natureza e uma prática ideológica fundamentada num autoritarismo metodológico e instrumental. A participação intensa dos brasileiros na eleição, que não se restringiu às redes sociais, mostra que se esse envolvimento for duradouro e não se limitar à véspera da eleição, as chances de demitir um candidato no futuro serão muito maiores.

São constatações relevantes para o trabalho de oposição daqui em diante.

- Todos os que trabalharam para demitir o PT do governo, incluindo os partidos, devem aproveitar o momento para fazer a oposição contundente de alto nível que jamais se fez para o bem do país, algo que o PT desconhece e que jamais faria caso tivesse perdido. Os petistas, na oposição, teriam seguido o método de sempre para destruir quem estivesse no comando político do país e assim beneficiar-se do caos.

- A melhor oposição da sociedade, e a dos partidos não alinhados com o PT, será aquela que pressionar os políticos e os governos para que neutralizem o projeto político do partido e que atue para forçar os políticos a deixarem de atrapalhar as nossas vidas. Oposição vigorosa, séria, implacável, fundamentada, sem moleza nem maluquice. Se o governo do PT fizer nos próximos quatro anos o que fez nos quase quatro anos de governo até agora, seremos todos prejudicados e ainda teremos que pagar a conta.

- O Brasil já estava politicamente dividido e isto é uma grande notícia. Esta eleição mostrou que parte numerosa dos brasileiros não está com o PT nem com o PSDB. Também mostrou que a parcela dos eleitores que votou no PT é formada por aqueles que estão ideologicamente e moralmente alinhados com o partido; por aqueles que, embora não alinhados, acreditam no PT; por aqueles que não votam no PSDB; e por aqueles que votam porque dependem do governo.

A parcela de eleitores que não votou no PT é composta por pessoas que queriam demitir o PT do governo; que queriam alternância de poder; que estavam de alguma maneira desiludidas com o PT; que não estavam ideologicamente e moralmente alinhadas com o PT; que não são eleitoras do PSDB; que são eleitoras do PSDB ou de outros partidos.

- Os insultos contra os nordestinos, ou contra quaisquer indivíduos das regiões que votaram em massa no PT, terão como resultados nefastos reforçar o discurso dos petistas baseado na divisão entre ricos e pobres, pretos e brancos et caterva, e manter as pessoas economicamente vulneráveis no colo do partido, além de agredir estupidamente todos aqueles que nesses lugares trabalharam bravamente contra a reeleição da presidente. Uma simples análise do mapa de votação por estado mostrará que, embora a concentração seja maior no norte e no nordeste, em vários outros pontos do país o PT foi o mais votado. Minas Gerais é o exemplo mais notável e emblemático.

- A derrota de Aécio Neves em lugares antes considerados improváveis como Minas Gerais merece reflexão. Os mineiros que votaram contra Aécio o conhecem melhor do que o resto do país. Quando Marina Silva subiu no foguete após a morte de Eduardo Campos eu até brinquei no Facebook perguntando se Aécio era candidato. Ele parece ter acordado e decidido efetivamente trabalhar como tal na véspera da eleição. Só teve a votação que teve porque parte da sociedade brasileira se mobilizou para demitir o PT, não porque foi persuadido de que ele era o melhor candidato.

- Separar o país não irá resolver o problema das regiões mais pobres. A pobreza e a dependência estatal de uma grande parcela da população e a falta de capitalismo positivo são os principais problemas de regiões como o Norte e o Nordeste. Quanto menos prosperidade, mais dependência, mais governo, mais servidão.

- As reações no sentido de transferir ao governo e aos petistas a ajuda aos mais necessitados só reforça a mentalidade estatista e a dependência de parte da população, ratificando o discurso torpe feito pelo PT. Quanto mais a sociedade ajudar voluntariamente quem precisa e fazer com que eles menos dependam (ou deixem de depender) do governo, melhor para os brasileiros e pior para os políticos que conquistam seu eleitorado com esse tipo de relação.

- Precisamos de uma cultura política mais apurada baseada nas melhores experiências domésticas e internacionais. E é importante ter referências de homens que atuaram virtuosamente e fazem parte da história política do Brasil. Joaquim Nabuco é um exemplo dentre vários. É sofrível que num debate à presidência os nomes citados sejam os de José Simão e de Tancredo Neves.

- Por tudo o que se apresenta até agora, fruto de erros medonhos da presidente e de sua equipe, parece que enfrentaremos tempos difíceis e um governo que tem tudo para ser pior do que tem sido. Mas o país parece ter entrado num processo de construção de uma participação política mais ativa e não mais limitada aos partidos e aos seus militantes. Há muita gente disposta e disponível, e atuando em diversos segmentos e instituições, incluindo as estatais, para não deixar que os piores continuem a ditar o debate político e os rumos da política. E também para criar alternativas ideologicamente diferentes das que existem atualmente, incluindo outros partidos que representem pessoas que, como eu, hoje não têm qualquer opção de voto, a não ser negativa (demitir em vez de eleger).

Se essa participação for ampliada e lapidada, certamente veremos, no futuro, um debate político mais qualificado e políticos menos piores, mas, principalmente, viveremos numa sociedade que, em termos gerais, não vê mais o estado e o governo como os agentes mais importantes da vida social, política e econômica.

É um processo árduo e demorado, mas possível. Depende do que cada um de nós fizermos daqui em diante.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Podcast do Instituto Mises Brasil: entrevista com Márcio Coimbra


O entrevistado de hoje do Podcast do Instituto Mises Brasil é o consultor político internacional em Washington (DC), Márcio Coimbra é um experiente defensor das ideias da liberdade e da Escola Austríaca. Pesquisador para a América Latina do Institute of World Politics, ele trabalhou como coordenador político do Hayek Institute, sediado em Viena, e fez o mestrado em Ação Política na Universidad Rey Juan Carlos em Madri, centro acadêmico de estudo da teoria Austríaca na Espanha.

Membro da The Mont Pelerin Society, Márcio conta neste Podcast do Instituto Mises Brasil como foi a sua experiência no Hayek Institute e os trabalhos que lá desenvolveu, incluindo projetos no site e eventos externos.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Conservadorismo, reacionarismo, direita e revolução


Uma boa entrevista com João Pereira Coutinho no blog Terra Magazine:
POR SÉRGIO RODAS OLIVEIRA 
A mais recente obra de Coutinho, “As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários" (Ed. Três Estrelas, 200 págs, R$ 25), tem o objetivo de definir o conservadorismo político, seus ideais e o modo de agir dos governantes adeptos a essa doutrina. Para isso, o escritor traça as origens históricas e filosóficas da ideologia, com ênfase especial ao pensador irlandês Edmund Burke, criador de “alguns princípios gerais [sobre o conservadorismo] que, para usar a conhecida formulação conservadora, sobreviveram aos ‘testes do tempo’”.
Em geral, conservadorismo e reacionarismo são tratados como sinônimos. Por que isso ocorre? Quais são as diferenças entre eles?
Existem duas formas de responder à pergunta. A primeira é dizer que nem todos os conservadorismos são formas de reacionarismo. A proposta que apresentei no livro afasta-se dessa tentação reacionária ao defender que o conservadorismo político lida com um presente que importa preservar – e não, como diria um reacionário, com um passado ideal, utópico, obviamente falso, que importa reinstaurar.

Porém, é preciso também dizer que existiram tradições conservadoras que assumiram uma postura reacionária. Joseph de Maistre em França, e todos os seus fiéis herdeiros (como Barrès, Maurras etc.) representam essa linhagem, por exemplo. Felizmente, é apenas uma linhagem e não esgota o conservadorismo como ideologia. Nem sequer em França.

O conservadorismo é geralmente alocado no campo das ideias políticas de direita. No entanto, o senhor fala em seu livro que o conservadorismo é uma ideologia posicional, dependente das circunstâncias históricas. Dessa forma, é possível existir um conservadorismo de esquerda?
Não. O conservadorismo é uma ideologia posicional, para usar a terminologia de Samuel Huntington, porque ele tende a emergir como reação a um mal específico que põe em causa valores, princípios ou instituições que o conservador entende como importantes e necessários para uma sociedade. Isto tem uma implicação axiológica evidente: ao contrário de um liberal ou de um socialista, para citar apenas os casos que o próprio Huntington analisa, não é possível determinar à partida, sem conhecer a natureza da ameaça, que valor ou conjunto de valores o conservador defenderá incondicionalmente.

No caso do liberalismo (com a liberdade) ou do socialismo (com a igualdade), esses valores estão definidos a priori e condicionam uniformemente o tipo de resposta política que ambos defendem para a sociedade, independentemente das circunstâncias. Esta forma abstrata de pensar a política é estranha para um conservador.

No livro, o senhor menciona várias vezes as críticas de Edmund Burke à Revolução Francesa. Mas o senhor acredita que, via reformas, seria possível passar do Absolutismo ao Estado Democrático de Direito?
Provavelmente, sim. Isto para não repetir o conhecido argumento de Tocqueville, retomado por Bertrand de Jouvenel no século XX, de que a Revolução Francesa apenas substituiu uma forma de absolutismo (monárquico) por outra forma de absolutismo (jacobino). Porém, o que me interessa na crítica de Burke é sobretudo a presciência de alguém que viu na Revolução Francesa as sementes de uma forma totalitária de pensar e fazer política. Isso não quer dizer que Burke não tenha admitido que a Revolução Francesa poderia trazer ganhos (quando se destrói tudo, elimina-se tudo, até eventuais males, escreveu o parlamentar irlandês). E, no fim da vida, ele considerou que era já inútil combater a Revolução (algo impensável para Joseph de Maistre, por exemplo).

Mas são os pressupostos totalitários da Revolução que me interessam na crítica de Burke e, claro, a proposta “conservadora” que ele faz, sobretudo na segunda parte das Reflexões sobre a Revolução na França.

Revoluções trazem sempre mais prejuízos do que benefícios?
Não é possível responder a essa pergunta em abstrato. O próprio Burke, que foi um opositor violento da Revolução de 1789, admite nas suas Reflexões que podem existir situações tão excepcionalmente graves que uma ruptura com o status quo é inevitável e até desejável. Como ele diz, são situações que não escolhemos, mas que nos escolhem a nós. Porém, são situações excepcionais e a França, em 1789, não estava para ele nessa situação.

Em países como o Brasil, onde ainda permanece uma divisão social que foi traçada no Período Colonial entre latifundiários e escravos, a ideia conservadora de reformar respeitando as tradições e instituições não seria reacionária, uma vez que, ao não romper as estruturas do passado, ajudaria a preservá-lo?
Poderia ser, sim. Aliás, existe uma tradição dentro da tradição conservadora americana nos séculos 18 e 19 composta por escravocratas que pretendiam a manutenção do sistema e lutaram por isso – intelectualmente e com armas. Mas, repito, é apenas uma tradição – ou, se quiser, uma metástase – do conservadorismo. Num país como o Brasil, o conservadorismo liberal que é apresentado no livro nada tem a ver com a manutenção reacionária de tradições inúteis e malignas. O alvo é outro: retirar ao governo (e uso “governo” no sentido geral de Estado) o papel nocivo e onipresente que tem na sociedade, permitindo reformas que a libertem da tutela estatal.

Ao rejeitar mudanças radicais, o conservador não defenderia a manutenção de privilégios a certas elites, se levarmos em conta a ideia de Marx e Lenin que o Estado é um instrumento de controle das classes menos favorecidas pela burguesia? A ideia de reformismo brando não se assemelharia à máxima do escritor italiano Tomasi di Lampedusa de que "algo deve mudar para que tudo continue como está"?
Essa ideia de Marx, como quase tudo o que ele escreveu, é uma fantasia ridícula, desmentida pela história. A ideia de que o proletariado é explorado pela burguesia talvez seja válido se estivermos a falar das criadas de Marx. Na realidade, a “luta de classes”, como escrevi recentemente na Folha, revelou-se apenas um processo de “imitação de classe”: veja só, o proletariado sentia-se tão explorado pela burguesia que, em vez de a destruir, procurou ser como ela – nos seus hábitos e gostos! Eis a suprema ironia.

De resto, e empiricamente falando, onde o Estado se revelou um instrumento de controle e opressão foi nos países comunistas – onde, aí sim, existia um fosso brutal entre uma massa miserável e uma elite corrupta e privilegiada. As pessoas que enchem a boca contra o “capitalismo selvagem” deveriam conhecer melhor o “comunismo selvagem”.

Sobre a máxima de Lampedusa, ela retrata um imobilista, não um conservador. Um conservador sabe que a mudança é inevitável, exceto se estivermos a falar de “sociedades fechadas” (para usar a célebre expressão de Popper). E ainda hoje existem imobilistas desse tipo, que querem deixar “tudo como está”. Normalmente são meninos que marcham contra a globalização, ou seja, contra a abertura ao mundo e à mudança. Para um conservador, a questão é outra: como acomodar a mudança; como efetuar mudanças necessárias; e como, mudando, preservar o que de bom e útil deve continuar a existir.

Ao mesmo tempo em que o conservadorismo prega a humildade e o reconhecimento da imperfeição humana, ele, por não ter traços ideológicos rígidos, confere grandes poderes para o indivíduo político agir de acordo com sua avaliação do momento histórico. Essa confiança no julgamento de um indivíduo não é contraditória com a consciência das limitações humanas?
Não. Pelo motivo simples de que um governo conservador não depende dos caprichos de um homem, mas do império da lei.

Alguns críticos do conservadorismo o acusam de não passar de uma espécie de relativismo. Qual é a diferença entre conservadorismo e relativismo?
Essa acusação deve-se ao fato do conservadorismo valorizar tradições particulares, que obviamente são diferentes em diferentes sociedades. O que eu procurei argumentar no livro é que as tradições não bastam como rumo da ação política. Uma concepção universal sobre a natureza humana é prioritária em relação às tradições relativas.

Qual é a diferença entre os valores fundacionais e o valores secundários? E quais são eles para os conservadores?
Esses valores fundacionais – ou “primários”, como lhes chama John Kekes, um grande pensador contemporâneo – são aqueles valores básicos sem os quais uma sociedade, qualquer que ela seja e onde quer que ela esteja, não pode ser considerada como decente. Uma sociedade que humilha, tortura ou priva os seus cidadãos das necessidades mais basilares está a violar esses valores fundacionais, está a violar essa minima moralia.

Os valores “secundários”, para usar novamente a linguagem de Kekes, são aqueles que diferentes sociedades perseguem diferentemente, uma vez respeitados os valores “primários”.

Por que preconceitos podem ser úteis aos conservadores?
Podem ser úteis se forem entendidos no sentido filosófico do termo, não no sentido rasteiro em que hoje se transformaram. Como afirma Burke, os “preconceitos” são “o capital das nações e das eras”, ou seja, uma espécie de repositório de conhecimentos válidos, testados, que podem auxiliar o governante na sua ação.

O senhor está acompanhando a disputa para a presidência da República no Brasil? Se sim, qual candidato se identifica mais com o conservadorismo?
Acompanho as presidenciais como simples curioso. Nenhum dos candidatos pode ser considerado “conservador” no sentido em que utilizo a palavra no livro.

Como um conservador enxerga o atual estado da Europa? Quais caminhos o conservador defende para tirar o continente da crise?
A Europa deveria ser uma associação de nações livres, que partilham a soberania com o grau de integração que entendem e sem amarrarem o seu destino a uma moeda, a um comitê, a uma utopia federal. Se a Europa perseguir essa utopia, ela estará novamente em guerra no espaço de uma geração.