No Dia de Bloom, Garschagen entrevista tradutor de Ulisses

Marilyn lê Ulisses
E você achou que eu fosse colocar uma foto do Joyce, né? Confessa, confessa! Ai, Marilyn…

Caetano Galindo tem 33 anos, nasceu em Curitiba e trabalha como professor de lingüística histórica na Universidade Federal do Paraná. Nas horas vagas, segundo diz, é tradutor. Verteu para o português “No bosque da noite” (Djuna Barnes, Códex), “Contos completos” (Rocco), de Saul Bellow; “A grande travessia” (EdUnB), de Lucian Blaga; “Os diários do Beagle” (EdUFPR), de Charles Darwin. Entrevistei Caetano em 2005 para uma matéria publicada a revista Entrelivros sobre a nova tradução de Ulisses, de James Joyce, feita pela professora e tradutora Bernardina Pinheiro. Caetano, além de tradutor rigoroso e talentoso, é um grande sujeito. Virou companheiro de conversas virtuais e um amigo querido, com quem falo menos do que gostaria. Esta entrevista virou texto sem um décimo do que ele diz aí. Publico, hoje, para me juntar ao Leandro no Bloomsday (corre lá!). Divirta-se, meu leitor joyceano.

Porquê traduzir “Ulisses”?
Por quê? Vejamos. O velho Valéry Larbaud (aquele mesmo que costuma ser equivocadamente chamado de “o cara que traduziu o “Ulisses” para o francês) costumava dizer que a tradução é a leitura mais amorosa. E ele tem razão. E eu costumo repetir isso daí. Tanto como acadêmico como diletante, pode-se dizer, portanto, que a minha primeiríssima razão foi esta: ler o livro com uma atenção que, de outra maneira, a gente não consegue ter. Tentar entender um livro que, ninguém ignora, não é difícil. Até no texto que eu escrevi aí pra revista eu usei bem essa metáfora: é tipo um mecanismo qualquer, muito complicado; se você quer realmente, além de entender, ver como funciona, você só pode pensar em desmontar e tentar montar de novo. E tradução é isso. Desmontar um texto e montar um outro com, basicamente, as mesmas peças.
Para quê? Veja bem. Eu tenho um projeto de doutorado na USP (orientador: José Luiz Fiorin) em que a gente pretende verificar todos os mecanismos de representação de vozes no livro. Achei que para ter o tipo de intimidade que essa investigação requeria era necessário que eu reescrevesse o livro inteiro, passasse por uma peneira muito fina, que é, repito, o que a gente faz quando traduz. O processo de tradução me deu uma intimidade e um conhecimento do texto que nenhum outro tipo de leitura poderia propiciar. É uma leitura com lente de aumento.

Que tipo de preocupação estética e estilística você teve enquanto traduzia?
Veja, de um lado, minha motivação inicial já foi um respeito enorme e uma quase devoção, que me levaram, portanto, a querer me manter muito perto do texto em todos os momentos, e em todas as instâncias. Por outro lado, não tenho a mais remota dúvida de que o processo de tradução é essencialmente equivalente ao processo de se escrever um livro baseado no esqueleto fornecido por uma outra obra. A autoria está lá. Eu, hoje, sou como Pierre Ménard, autor do Quixote, do conto do Borges: é como se eu efetivamente sentisse que não fiz mais que copiar o texto palavra por palavra e, ao mesmo tempo, soubesse que a cópia que fiz é agora um livro completamente diferente e, mais do que isso, um livro que é meu.
No miúdo, o principal que tentei manter foi um respeito pela diversidade. Joyce emprega pastiches de dezenas de fontes diferentes, caricaturas, tributos, retratos de oralidade. E é necessário não achatar o texto quando da tradução. Joyce era bem mais que trezentos e cinqüenta (o que é dom natural do romancista, não é?) e é estritamente necessário que o tradutor mantenha sempre em mente o grau de apagamento de sua própria voz que Joyce conseguiu obter com todos esses recursos para tentar buscar algo semelhante: desaparecer como voz singular no mapa das ruas de Dublin e da língua inglesa. Ou de Curitiba e da língua portuguesa.
É preciso respeitar o pluriestilismo do “Ulisses”; um de seus traços mais marcantes, mais precocemente apontados (Pound chegou a censurar Joyce por carta antes mesmo da publicação em forma de livro: “será que é mesmo necessário um estilo novo a cada capítulo?”) e, no entanto, mais negligenciados nas traduções que conheço. A mais recente tradução francesa, por exemplo, empregou 18 tradutores diferentes; um para cada episódio. Achei bacana a idéia.

Houve alguma preocupação em manter a coloquialidade dos diálogos levando em conta a língua falada pelos dublinenses na época, ou você preferiu atualizar as frases e expressões do romance?
Não atualizei demais, mas não quis me manter arqueológico. Minha Molly, especialmente, solta umas expressões bem belle-époque, mas a coisa fica mais no registro da cor da superfície. De início cheguei a pensar em produzir uma versão arqueológica no sentido que os músicos dão ao termo (execução com instrumentos de época e coisa e tal): eu queria até manter a ortografia do português de 22. Mas desisti. Acho que por preguiça. O fundamental é evitar soar anacrônico demais. Não dá pra um personagem usar uma gíria recente e, no geral, busquei evitar palavras que tivessem entrado no português depois do começo do século no texto todo. Ser professor de lingüística histórica ajudou bastante nisso. Mas só pude fazer como queria graças ao grande Antonio Houaiss e seu Dicionário.
Nessa pergunta, no entanto, friso mais a coisa da oralidade do que a da época. Como o livro tem reputação de difícil e de erudito, algumas pessoas tendem a esquecer que se tratava de um trabalho escrito, em diversos momentos, em uma linguagem popular obscena, vulgar e baixa, na opinião dos mesmos “eruditos” que por vezes se meteram a falar do romance. É um crime “desoralizar” o “Ulisses”.

Como foi a pesquisa lingüística que você desenvolveu para fazer a tradução?
Variou. No geral ela se limitou àquilo das datas de entrada das palavras de que falei lá em cima. Mas isso não foi uma pesquiiisa. Li por exemplo João do Rio para ter uma idéia mais clara de uma língua informal brasileira do período.
Pesquisa mesmo eu tive que fazer para traduzir o episódio conhecido como o Gado do Sol (o capítulo 14). Ali, Joyce empregou uma série de pastiches que reproduziam a evolução do estilo literário inglês desde os primeiros registros da língua. Esse capítulo costuma ser vergonhosamente achatado em traduções, com os tradutores fazendo só aquilo que indiquei que eu mesmo fiz com a temporalidade da oralidade, por exemplo: você escreve um texto neutro, que aqui e ali tenha marcas de “antiguidade”.
Ali, por inclinação profissional, eu quis tentar encarar plenamente o desafio. É conhecida a lista de modelos que Joyce usou para seus pastiches. Sentei com a minha mulher, que é professora de literatura brasileira aqui na federal, e montamos uma lista de fontes da história da literatura portuguesa que pudesse servir de modelo para o meu capítulo. Aí eu sentava, lia trechos de cada autor, fazia uma lista com expressões, palavras e construções típicas de cada período (só não mantive a grafia, e busquei usar apenas palavras que o Houaiss ainda registra), e sentava com o original para produzir minha tradução pastichada. Assim, eu evitei o que acho que seria a coisa mais ridícula, que seria produzir um pastiche dos pastiches de Joyce. O texto dele é um questionamento à (e uma celebração da) literatura inglesa; eu assumi os mesmos questionamentos e celebração no campo da autêntica literatura de língua portuguesa. Ficou legal. Alguns trechos dele devem ser lidos na comemoração do Bloomsday paulistano deste ano.

Quanto tempo levou para traduzir?
Dois anos de trabalho diário para produzir a primeira versão. A revisão, estou fazendo no ritmo em que escrevo os capítulos da tese. Devo terminar tudo até março de 2006, o que vai dar quase cinco anos de trabalho.

Mesmo sendo difícil citar tudo, quais são os maiores erros e acertos da tradução de Antonio Houaiss?
O grande e inquestionável acerto foi o colhão. Quando outras pessoas recusaram a tarefa (muito mais difícil na época: a bibliografia sobre o livro cresceu incomensuravelmente de lá pra cá), ele se decidiu a dedicar um ano de sua vida unicamente a isso e produziu, com esse prazo apertado, uma tradução que por tudo isso merece ser considerada o clássico que é. Ora, não fosse por ele, quem é que pode dizer por quantos anos ainda se prolongaria a ausência do “Ulisses” na nossa literatura, que naquele momento já ia para completar 50? De resto, ele conhecia mais de perto a língua do início do século e era capaz de acertos invejáveis. Ele tem um “pague e não bufe” já no capítulo 1, que meu avô usava e que eu só não roubei por vergonha.
Erros. Eu, na minha modesta, acho que ele é um dos achatadores. O livro dele é muito mais consistentemente dele do que o “Ulisses” original é do Joyce. As pessoas falam línguas mais parecidas e, quando ele tenta se desviar, às vezes exagera na mão, como nos solecismos da Molly Bloom. O livro dele é menos vário, menos colorido e, especialmente, muito menos bonito que o original. Mais tedioso, portanto, o que é tudo que um bom “Ulisses” não pode ser.

Você pretende publicar sua tradução? Já tem algum contrato com uma editora e provável data de lançamento?
Minha tradução foi concebida e gerada para fazer parte de minha tese. E será publicada como parte dela (volume 2). De resto, com a publicação da tradução da professora Bernardina, que tem tudo para colmatar tudo que é lacuna da tradução Houaiss, não vejo, tão cedo, interesse nem possibilidade de lançamento comercial do texto integral. Assim, tentarei ir publicando fragmentos, só para deixar o registro (Nota: foram publicados trechos na EntreLivros e no livro do Bloomsday de São Paulo).
Além disso, tenho vontade de transformar meu trabalho, para que ele não fique só pegando poeira na sessão de teses das bibliotecas, em algo que eu imbecilmente venho chamando de trabdução. Uma versão completa, uma paráfrase chamada Bloom, ambientada em Curitiba, em 16 de junho de 2004, que foi o dia em que terminei a tradução. Vamos ver se alguém se interessa por publicar.

3 Comments so far

  1. […] Caetano já traduziu “No bosque da noite” (Djuna Barnes, Códex), “Contos completos” (Rocco), de Saul Bellow; “A grande travessia” (EdUnB), de Lucian Blaga; “Os diários do Beagle” (EdUFPR), de Charles Darwin. Graças a ele conheci a impressionante poesia de Blaga. Publiquei entrevista com ele aqui. […]

  2. » Bloomsday procê também! Junho 17th, 2008 12:28 am

    […] No Dia de Bloom, Garschagen entrevista tradutor de Ulisses; […]

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