Não entres nessa noite acolhedora com doçura (bem, pela hora, pode sim, mas volte, ok?)

Vou deixar você, leitor poeta, com um de meus poemas preferidos, daqueles que martelam diariamente a cachola. Lembro de gente me dizendo a mesma coisa sobre aquela famosa música imortalizada na voz de Tetê Spíndola, lembra, lembra?
Vamos ao que interessa:
Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura
(tradução de Ivan Junqueira)
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.
Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.
Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.
Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.
Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.
E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.
(Hoje mais tarde, pitacos sobre a tradução)
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Uma das mais conhecidas - como é que se chama mesmo? - uma vilanelle. Outra famosa é “One Art” da Elizabeth Bishop. Mas a dela é um pouco menos ortodoxa, os versos repetidos têm variações.
A tradução, bem. Já te falei o que penso da tradução do Ivan Junqueira para o Baudelaire: aquilo que disse muito bem o Ruy Goiaba. Aplica-se aqui. Dylan Thomas faz poesia com as palavras mais elementares e o Ivan Junqueira vai e traduz “sad height” por “cúpula obscura” e “caught and sang” por “abraçaram e louvaram” e “Blind eyes could blaze like meteors” por “retina cega, qual fugaz meteoro” etc.
A mim chama a atenção que o poema original é quase todo em monossílabos, o que lhe dá um efeito um pouco mágico e encantatório. Se eu fosse fazer uma tradução, optaria por palavras mais curtas e compensaria a falta de monossílabos do português com o máximo de iambos.
Mas é fácil criticar qualquer tradução de poesia, e é difícil traduzir bem. Muitas vezes é preciso considerar que algo tem valor não só por ser de um determinado jeito, mas por conseguir não ser de outro jeito qualquer.
Nesse link tem um arquivo do Richard Burton declamando esse poema, achei no eMule. É o que eu menos gosto dos poemas do DT interpretados pelo RB - meu preferido é Elegy to his father, Poem in October e Under Milkwood logo atrás. Mesmo assim, I thought I should send you:
http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=F0307E3C2727A42A