Braga, meu filho, cadê você?

Rubem Braga pensando se bebe uísque ou se entrega a uma bacia de jabuticaba

N’O Globo:

O caderno Prosa & Verso aproveita que o colunista do jornal, Joaquim Ferreira dos Santos, lança livro As cem melhores crônicas brasileiras para falar do gênero, entrevistas os especialistas etc. Acho bom. Crônica, especialmente a que se fazia, deve ser mais bem cuidada. Ma não vou entrar naquela conversa de sempre do que ficou de fora, se as escolhas foram boas, blábláblá.

Como Rubem Braga, segundo a matéria, é a justificada estrela do livro, informo em primeira mão que a biografia do homem está prontinha numa grande editora para ser lançada até outubro. O biógrafo, Marco Antonio Carvalho, está aqui em casa e depois vai me dizer que pode adiantar para você, leitor, sobre o lançamento. Eu já li a biografia e se eu elogiar muito vai parecer coisa de cumpadre, mas está realmente muitíssimo boa.

Além do mais, Marco foi contratado pelo Município de Cachoeiro para ser o curador da Bienal Rubem Braga, em maio de 2008. Eu fui mediador das palestras da Bienal no ano passado. Foi um choque de literatura numa terra arrasada.

Continuando com Braga, compartilho aqui um texto que escrevi para o No Mínimo, ano passado, por conta dos 10 anos de morte do cronista:

Ai de ti, crônica brasileira!

19.12.2005 | Havia uma brincadeira na década de 1960: se acontecesse alguma tragédia na famosa cobertura de Rubem Braga na rua Barão da Torre, em Ipanema, a crônica brasileira seria ceifada de uma vez só. Era lá que se reunia com certa freqüência a constelação do jornalismo literário brasileiro - Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Carlinhos de Oliveira.

Amigo de boa parte das estrelas das artes brasileiras, Rubem Braga, o maior cronista do país, morreu há exatos quinze anos, no dia 19 de dezembro de 1990, deixando um vácuo na literatura e no jornalismo nacionais. Valendo-se do cotidiano para combinar lirismo e visão poética, Braga esmiuçou as miudezas de ternura e caráter do ser humano e fez da crônica sua epopéia minimalista.

Foi nesse “imprudente ofício de viver em voz alta” que o cronista tornou-se a figura fundamental na constituição da crônica como gênero literário, segundo o crítico Wilson Martins na “História da inteligência brasileira” (volume VII, 1933-1960). A consagração se deu no final da década de 1940, anota Martins, marcada pelo lançamento de “O homem rouco”, de Braga, e “Couves da minha horta”, de Vivaldo Coaraci.

Hoje se completam não só os quinze anos da morte de Rubem Braga como o fim de um estilo criado pelo cronista e sepultado com ele. “Ele criou um tipo de crônica só dele”, diz Wilson Martins a No Mínimo. “Rubem foi um dos cronistas que modernizaram a linguagem da imprensa brasileira nos anos 50, mas não sei se haveria espaço para seu tipo de crônica hoje em dia pela preferência dos jornais por textos de opinião”, lamenta Álvaro da Costa e Silva, editor do caderno “Idéias”, do “Jornal do Brasil”.

O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, colunista de “O Globo” e autor do saboroso perfil de Antonio Maria (Coleção Perfis do Rio – leia “Crônicas de um sedutor elegante”, entrevista a José Castello, publicada aqui em NoMínimo no dia 20 de outubro), concorda com o colega e diz que não há o que lamentar: “Mudamos todos - cronistas, jornais, os tempos e os leitores. As crônicas ao modo antigo andavam fora do tom das publicações”. Mesmo assim, Joaquim não tem dúvidas ao dizer que sempre haveria lugar para o Braga, embora o espaço que ele pudesse ocupar seria muito diferente.

Antídoto contra o mau humor

Silviano Santiago, escritor, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras, acha que sempre haverá lugar para o lirismo. Diz que os tempos continuam tão bicudos quanto no século passado, mas faz uma boa pergunta: “Não é o lirismo o melhor antídoto contra o mau humor dos que já nascem constipados para a vida?”

Biógrafo do Braga, o jornalista e escritor Marco Antonio de Carvalho acha que um texto superior como o do cronista sempre teria espaço na imprensa. “Quando Rubem Braga começou a carreira em Belo Horizonte, os textos dos jornais eram empolados. Ele lapidou seu estilo e conseguiu abrir as portas com um texto único.” A biografia do cronista está pronta e será lançada em 2006. Carvalho está em busca de uma grande editora que capriche no produto e na distribuição.

A crônica, tal como a conhecemos com Braga, Antonio Maria, Sabino, Mendes Campos e Otto, para citar alguns, extinguiu-se. Costa e Silva, do caderno “Idéias”, credita isso à mudança de perfil dos cronistas. “Não existe mais o cronista que sai pelas ruas observando, colhendo impressões para seus textos e lançando um olhar sobre a cidade e seus habitantes.” Por conta disso, diz, a mudança de estilo é um processo natural.

Joaquim Ferreira dos Santos acha que a crônica atual acompanha a temperatura dos jornais e conserva o pique quente de que precisa para não se perder em meio ao noticiário. “Quase todos os cronistas hoje têm formação jornalística”, diz o colunista de “O Globo”. “Alguns nem fazem crônicas, mas artigos, editoriais, ensaios.”

Wilson Martins acha que a crônica, hoje, está dispersiva, o que enfraquece o gênero e dificulta o surgimento de novos estilos: “Como parece um gênero literário fácil, qualquer um acha que pode escrever uma crônica. Mas crônica não é devaneio, necessita de uma espinha dorsal que sustente o texto.”

Outro fator que contribuiu para o exaurimento da crônica focada no lirismo foi a imitação pura e simples do estilo estabelecido por Rubem Braga. Álvaro da Costa e Silva cita amigos do cronista que, antes de encontrarem o próprio estilo, tentavam ser Rubem Braga. “No livro ‘A casa demolida’, por exemplo, Sérgio Porto tenta se colocar diante das coisas com o lirismo de Rubem, mas só fez sucesso após encontrar sua veia de humor.”

Provocador, Wilson Martins cita Drummond, “que tentava imitá-lo e ao mesmo tempo fugir da imitação”. O lirismo, porém, era um dos vários condimentos que Braga salpicava em suas crônicas. O humor fino e a sátira eram dois elementos igualmente importantes, segundo o crítico. Para Joaquim Ferreira dos Santos, Rubem Braga inventou um acento próprio, “cruzamento da língua culta com o coloquial das ruas do interior e interiores brasileiros”.

Vaivém antes de chegar a Ipanema

Com ou sem herdeiros, a obra de Braga mantém-se viva. Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, prepara uma série de eventos, entre abril e junho de 2006, para homenageá-lo. Além de uma Feira do Livro, será reaberta, após uma reforma, a Casa dos Braga, sobrado onde ele passou a infância e atualmente é um museu da família e biblioteca pública. Também será realizada a Primeira Bienal Cultural Rubem Braga, com debates e encenação de peças baseadas em crônicas. O secretário municipal de Arte e Cultura, José Carlos Dias, diz que o município pretende, usando a imagem do filho ilustre, transformar-se na capital da crônica no país.

Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim em 1913. Aos 14 anos, em 1928, deixou a cidade após ser chamado de burro pelo professor de matemática, Ávila Júnior. Foi estudar em Niterói, depois seguiu para Belo Horizonte, onde se formou em direito e, em 1932, iniciou a carreira jornalística. Graduado, mudou-se para São Paulo no ano seguinte, aos 21 anos, para trabalhar como repórter e cronista no “Diário de São Paulo”, de Assis Chateaubriand.

Em 1934, foi morar no Rio de Janeiro, capital da República. Tinha emprego certo em “O Jornal”, o mais importante diário da rede criada por Chateaubriand. Voltou para Belo Horizonte em 1936, onde se casou em agosto com Zora Seljan, que lhe deu seu único filho, Roberto (depois de se separar dela em 1949, não se arriscou em outro casamento). Em 1937, o casal mudou-se para o Rio e, em 1939, para Porto Alegre. Um ano depois, Braga e Zora voltaram para São Paulo e ele começou a trabalhar no “Estadão”, onde ficou por dois anos.

O repórter/cronista voltou para o Rio em 1943 e passou a fazer reportagens para o “Diário Carioca”. Em 1945, foi para a Itália como correspondente de guerra. No ano seguinte, já estava de volta ao Rio. No início de 1947, mudou-se para Paris como correspondente de “O Globo”. Retornou no mesmo ano. Em 1955, foi para o Chile como cônsul e, em 1961, seguiu para Rabat, no Marrocos, para assumir o posto de embaixador. Dois anos depois, voltou para o Rio, mais especificamente para Ipanema, de onde não saiu nunca mais.

Cronista, jornalista, tradutor, editor (sócio da “Editora do Autor” e da “Sabiá”), crítico de artes plásticas e correspondente de guerra, Rubem Braga também foi um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro, ideologicamente alinhado com o Partido Trabalhista inglês. Braga não gostava da esquerda, nem de Karl Marx, e costumava decretar, com fino humor, a impossibilidade de convivência entre dois comunistas. Dois legítimos representantes da esquerda juntos, segundo o cronista, nunca dariam certo, pois haveria uma disputa ininterrupta e feroz para se estabelecer quem era o mais radical.

Outro alvo de suas críticas agudas, especialmente no início da carreira, era a Igreja Católica. Por causa desses dois alvos preferenciais, o biógrafo Marco Antonio de Carvalho batizou seu livro de “Nem Deus, nem Marx: Rubem Braga e a crônica do século XX”, título inspirado na obra do filósofo francês Jean-François Revel, “Nem Marx, nem Jesus”. Enquanto a biografia não é publicada, o leitor pode conhecer algumas histórias da vida do cronista no livro “Na cobertura de Rubem Braga”, do jornalista José Castello.

Do jornal para a televisão

O folclore em torno de Braga era alimentado das mais variadas formas e sua casmurrice com aqueles que não privavam de sua intimidade deixava-os sem saber como agir. Foi assim com um grupo de jovens cachoeirenses que foi visitar o conterrâneo Rubem Braga na década de 1970, na cobertura de Ipanema. Braga, cronista consagrado, foi muito solícito com os rapazes, que traziam notícias frescas de Cachoeiro de Itapemirim. Minutos depois de conversa, Braga desculpou-se, disse que precisava ir ao aeroporto buscar um amigo, os moços podiam esperar, o uísque estava na mesa, o gelo, claro, no congelador. Que ficassem à vontade, não demoraria.

Os jovens pensaram que o anfitrião tinha sido muito educado, mas havia inventado uma desculpa para despachá-los de volta à terra natal. Entreolharam-se. O melhor era mesmo ir embora, decidiram. Anos depois, cada um deles lamentaria profundamente a decisão intempestiva. Os moços, incluindo um tio meu que contou essa história, perderam a chance de conhecer o poeta chileno Pablo Neruda.

O jornal impresso era seu métier, dominava as linhas da página. E só aceitou um emprego na TV Globo em 1975, a convite do amigo Armando Nogueira, então diretor de jornalismo da emissora, porque ganharia bem e escreveria textos curtos para o “Jornal Hoje”, vespertino editado pela jornalista Leda Nagle.

De seu trabalho para os jornais, Rubem Braga organizou seus livros de crônicas. Foram dezesseis, incluindo as coletâneas. Em cada um deles, há prosa de um encanto extraordinário, na definição do crítico Davi Arrigucci Jr. no ensaio “Onde andará o velho Braga?” (“Outros achados e perdidos”, Companhia das Letras, 1999). O primeiro livro do cronista, “O Conde e o passarinho”, completa 70 anos de publicação em 2006.

Filtro que engrandecia miudezas

Em suas crônicas, talvez como nenhum outro, Rubem Braga entrou cuidadosamente na alma do cotidiano para apresentar ao país os sortilégios das várias vidas que podemos assumir ao longo de uma existência e a respectiva beleza de seus fragmentos.

Tinha uma capacidade infinita para sustentar em crônica da melhor estirpe qualquer banalidade: a brisa do mar afagando-lhe as bochechas flácidas ou o sujeito que nadava nas águas de Copacabana. Lapidava o trivial.

Através de seus olhos, captamos os soberbos fragmentos que moldam o homem. Imbatível quando lírico, fazia (e continua fazendo) o leitor perceber a magia escondida sob a superficialidade do cotidiano. Rubem Braga tinha na alma um filtro que engrandecia miudezas.

A maior contribuição do escritor, segundo o crítico Wilson Martins, foi introduzir na crônica o lirismo e a visão poética, algo que não fizeram os cronistas anteriores, nem mesmo Machado de Assis e José de Alencar. “Rubem extraía poesia da realidade. Foi ele que aplicou na crônica uma visão poética dos elementos, como vemos em ‘A borboleta amarela’, ‘Uma certa americana’ e ‘Lembrança de um braço direito’.”

O escritor e crítico Silviano Santiago situa o modelo da crônica de Rubem Braga nos poemas em prosa franceses, especialmente os de Charles Baudelaire no século XIX, e define o texto dele como poema em prosa lírico, inspirado em Manuel Bandeira: “A crônica, ao ganhar a genialidade cotidiana do cronista, se rivaliza a este, chegando a resultados que até hoje nos fascinam e encantam.”

O crítico Davi Arrigucci Jr. notou, no já citado ensaio, que o cronista era um autor de acesso fácil e imediato para quem o lesse, o que pode explicar seu sucesso popular, mas extraordinariamente difícil para os que pretendiam falar criticamente do que leu. Braga recolhe suas “iluminações profanas”, pontua Arrigucci, num estilo humilde, descobre o fulgor instantâneo do símbolo no chão do cotidiano.

O legado de Braga, vítima de um câncer na laringe em 1990, não se perdeu, lembra o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. Pelo menos para ele. Em sua crônica semanal para “O Globo”, procura aplicar as lições do mestre: “Tudo o que escrevo tem uma forma do Braga por baixo. Não dá para desprezar um legado que juntava poesia, literatura, jornalismo e tinha uma voz absolutamente reconhecível.” Joaquim talvez seja o único cronista que cita de forma recorrente não só Braga, mas os escritores/jornalistas que, no Rio, sedimentaram a crônica como gênero literário.

“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.” Rubem Braga viveu em voz alta durante toda a vida, embora tenha saboreado, como ninguém, o prazer do silêncio.

4 Comments so far

  1. Paula Junho 23rd, 2007 9:59 am

    há anos escuto sobre a biografia do Braga. Já tá quase virando um mito. Na torcida para que saia mesmo em breve.

  2. » Um amigo que se vai, uma obra que fica Junho 25th, 2007 5:53 pm

    […] o amigo falecido de que falo na nota anterior chama-se Marco Antonio de Carvalho, que foi objeto de post aqui no sábado, por conta da biografia sobre Rubem Braga que eles escreveu e já está com a […]

  3. maria lucia cantanhede Abril 1st, 2008 9:13 pm

    Gosraria de ter acesso ao teu blog .Gratissima.maria lucia.

  4. Bianca Abril 23rd, 2008 10:24 pm

    a bienal aconteceu no ano de 2006, no ano retrassado

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