O crítico enquanto pensador, ou a quantas anda Barbara Heliodora

Dona Barbara gosta de sorrir, mas não sorri tanto depois de ver as montagens no Rio

Dona Barbara Heliodora deixou de ser uma crítica, a mais antiga crítica em atividade no país, para se transformar numa instituição. Seus textos para O Globo são o único contato que o país tem hoje com uma crítica de teatro canônica e exigente. Não é fácil. Dona Barbara é respeitada, temida até, mas contam-se nos dedos os que a elogiam. É divertido, em qualquer conversa sobre teatro, lançar seu nome como um napalm. O efeito é parecido.

Vi dona Barbara pela primeira vez em agosto de 2004. Era a primeira peça a que eu assistia como crítico de teatro da Gazeta Mercantil (agüentei na função por pouco mais de seis meses. Só consegui elogiar, que me lembre, uma única peça). “A tempestade”, de William Shakespeare no teatro Gláucio Gil, Copacabana, Rio de Janeiro. O Núcleo Carioca de Teatro apresentava uma das oito tragédias do escritor inglês. Fazia uns 19 graus, coisa rara no Rio. Barbara chega, se acomoda ao lado de um amigo e começa a falar sobre a peça. Eu só de espionando:

“Um dos versos não está traduzido da forma como deveria”, disse, de modo imperial, com a experiência de já ter traduzido, naquela época, 21 peças das 37 peças de Shakespeare (você não vai me ler aqui escrevendo “o bardo” e coisas do tipo). O amigo de dona Barbara ouve e arrisca uma tradução do trecho que ela recita em inglês, com voz grave e imponente. Barbara corrige-o e explica didaticamente a razão pela qual o verso deve ser traduzido de uma forma e não de outra. E continua a falar de Shakespeare, a grande paixão literária, a quem dedicou uma tese de doutorado na USP e uma vida de leitura. Shakespeare é seu santo Graal, sua referência maior, o cume da montanha onde escalam Tchekov, Moliére, Barbara Tuchman, C.D. Lewis, seus outros autores preferidos.

A peça começa e dona Barbara foca o olhar na atriz Maria Esmeralda, que surge no palco no papel do Ariel. O rosto deixa de ser o da senhora de 81 anos (hoje, 84), mãe, avó e bisavó, para assumir uma expressão de águia, pronta para o ataque. De perfil, o nariz adunco e o porte físico intimidam. Dona Barbara é uma mulher grande. Nada parece lhe escapar. Sem papel, sem caneta, olhos e memória trabalham juntos para assimilar e digerir as modulações de voz, os gestos, as falas, o comportamento, o talento, a luz, o figurino, o cenário, a direção, a reação do espectador.

“Se o cenário é uma solução admissível, os figurinos e adereços de Chico Figueiredo são desastrados (…). A direção de Luiz Arthur Nunes, que também é o tradutor, não consegue que o elenco transmita os aspectos mais significativos da peça, e deixa que, freqüentemente, o grito seja usado em lugar da nuança ou da intenção. O elenco não chega a captar o sentido do texto, e as atuações são, em geral, fracas”. E foi nessa crítica da peça para O Globo, em agosto de 2004, que eu soube o que ela pensava da montagem. Foi divertido. Continua sendo.

Textos como esse fizeram dela a principal e mais temida crítica de teatro do país.
Quem a vê compenetrada, naquela rigidez harmônica e compreensível, pode interpretar de várias formas. Se vai acertar ou não, pouco importa. O mais comum é achar que ela vai detonar a montagem. Mas é um erro. Um erro tão grave quanto achar que ela, por ter Shakespeare como modelo ideal de dramaturgo, seja uma crítica de teatro de gosto estético eminentemente conservador.

Contrariando todas as apostas, Barbara elogiou efusivamente a peça experimental “Regurgitofagia”, de Michel Melamed, também apresentada em 2004. “O texto é vivo, ágil, e vai sendo composto por uma série de variações sobre temas independentes. (…) Regurgitofagia, em sua prodigalidade, é inteligente, doloroso, assustador e, muitas vezes, divertido”. Nem Melamed, abnegado multimídia carioca, poderia esperar uma crítica dessas. Nem eu.

Quase todos os diretores atingidos pelas observações de dona Barbara devem achar que ela nada tem de surpreendente: o texto, invariavelmente, será demolidor. “A crítica tem a função de completar o círculo da criação artística”, diz ela, que imagina uma relação ideal na qual o criador do espetáculo teria a chance de verificar até onde obteve sucesso em seu trabalho; no caso dos leitores, seria uma maneira de ter na crítica uma orientação e informação mais ampla a respeito da peça.

“Não há engano maior ou mais pobre do que aquele que determina que estudar criticamente uma obra, ou ler crítica a respeito da mesma, possa acabar com o encanto que se tinha por ela. (…) A apreciação aumenta com o conhecimento, que permite uma melhor fruição dos méritos da obra”, ensina no texto “Anotações sobre a crítica”. Em debates sobre o ofício, Barbara costuma ser voz isolada contra a opinião comum, inclusive de outros profissionais e editores de jornais, que reduz a importância da crítica hoje em dia. Ela bate o pé na tese de que toda criação artística não só pode mas quer ser apreciada, analisada. “E há sempre quem queira ouvir uma opinião além da sua a respeito da obra que vê ou ouve”.

Embora saiba do poder de fogo de seu trabalho e da úlcera nervosa que causa na maioria dos envolvidos na montagem de um espetáculo por ela bombardeado, Barbara tenta minimizar o impacto de seus textos ao lembrar que a crítica teatral européia e americana é muito mais exigente do que a brasileira. “Se um de nós, por aqui, fizesse o tipo de reparo que aparece nos jornais franceses, ingleses ou americanos, ia passar por imensos apertos”. É verdade, é verdade.

Sinto que o diretor José Celso Martinez Corrêa discorda dessa constatação. Irritado com a crítica sobre a peça “As bacantes”, que dirigiu, não se conteve na grosseria contra Barbara: “É uma mulher mal-amada, ressentida e chata”. Nenhum homem civilizado por dizer uma coisa dessas em público. Em privado, até pode.

Faniquitos imponderáveis

Mesmo assim, ela admitiu numa conversa que tivemos em seu belo sobrado no Beco do Boticário, Cosme Velho, Rio, que, em geral, as reações às suas críticas são tranqüilas, apesar da irritação dos profissionais. Alguns, claro, ultrapassam facilmente o civilizado limite da irritação passageira. Em 1996, o diretor Ulisses Cruz, na estréia de “A dama do mar”, de Henrik Ibsen, viu quando Barbara chegava ao píer da Praça Mauá, local da encenação. Não se agüentou e foi desabafar:

— O que a senhora está fazendo aqui? Não detesta todos os meus trabalhos?
— Você prefere que eu não assista?
— Sim, prefiro!
— Tudo bem. Vou embora.

Dona Barbara tomou o primeiro táxi e rumou em direção ao Beco do Boticário, onde fica a casa onde mora, herança de seu bisavô materno, Luiz Alves Machado, construída por volta de 1870. Estava ainda digerindo a situação quando as produtoras da peça foram pedir que reconsiderasse: gostariam que ela voltasse para ver o espetáculo. Insistiram até convencê-la. O tesão pelo teatro falou mais alto do que classificou como “bobagens desse tipo”.

O sempre combatido, e combatente, Gerald Thomas, ouriçado pelos textos da crítica, cometeu a deselegância irresponsável de desejar publicamente, em 1993, que dona Barbara morresse na próxima pneumonia que tivesse. “Espero ansiosamente pela sua próxima pneumonia e faço votos de que ela seja a derradeira”. Ela teve mais quatro depois da praga Geraldiana, que, como se vê, não funciona, a exemplo de alguns de seus trabalhos. Ela nem se abalou. Acha que não houve intenção mais séria.

Numa entrevista para a Veja Rio em 1996, indagada se era gênio ou impostor, disse que Gerald Thomas não era nem uma coisa nem outra. “É um bom diretor que infelizmente quer ser autor. E como autor ele faz muita asneira. Há muita gente que diante das peças dele diz com medo de ser chamada de burra: ‘Ah, não entendi’. Que história é essa? Desde quando um espetáculo teatral é para você ir e não entender?”. O incidente parece ter sido superado. Gerald, inclusive, entrevistou a crítica em 2001 para seu site no UOL.

Em março de 1993, durante a festa de entrega do Prêmio Shell de Teatro, no Rio, centenas de artistas explodiram em vaias quando o nome da crítica foi citado por um dos apresentadores. Barbara não estava. Recuperava-se, ainda no hospital, da 14ª pneumonia. A filha Patrícia, na platéia, ficou indignada. Dona Barbara não dá tanta importância ao fato, mas acha que a reação mais lógica seria debater suas críticas com argumentos. “Foram incidentes um tanto tolos”, resume. E nem se trata de uma demonstração cínica de diplomacia; ela nunca teve medo de suas opiniões, por mais contundentes.

Sem cerimônia, dona Barbara reclama quando a chamo de senhora. Estamos, de novo, em sua casa. Durante a conversa, ela tasca algumas palavras, digamos, mais fortes, o que me deixou inicialmente desconcertado — depois também. Uma das vantagens de se atingir certas idades. Um advogado conhecido em Cachoeiro de Itapemirim, terra de Rubem Braga, ativo profissional até os oitenta anos, definiu com exatidão os benefícios de fazer oitenta anos: “não preciso mais bater em porta de gabinete de juiz”. Foi a mesma sensação de liberdade que o fez, certa feita, aplicar uma leve chave de pescoço num magistrado que prolongava excessivamente a adoção de uma medida processual para um cliente seu.

Tento evitar uma frase do tipo “Barbara Heliodora Carneiro de Mendonça nasceu no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1923”, mas não vejo muita saída. Mas agora vai melhorar: na infância, ela dedicava horas a Monteiro Lobato, histórias de aventura, coleção Tesouro da Juventude, livros de poesia. A família, de modo geral, lia muito, mas não a obrigava. “O hábito é contagioso”, disse-me.

Genealogia da moral

Seu pai, Marcos Claudio Philippe Carneiro de Mendonça foi um destacado goleiro do Fluminense na época do amadorismo. Era chamado de “fitinha roxa” por conta do laço de seda dessa cor usado para amarrar o calção. Ele ainda usava as chuteiras cobertas com gaze num tempo em que fazer isso ainda não era mal visto pela torcida (ou era?). Marcos foi tricampeão carioca em 1917, 1918 e 1919, e o primeiro goleiro da história da seleção brasileira, além de um homem garboso que provocava frêmitos de decotes entre a juventude feminina.

Na intimidade, era chamado de “velho Marcos”. Segundo Barbara, o pai adorava ler. Sua vocação era a História; a especialidade, História do Brasil. Membro do Instituto Histórico e Geográfico, lá fundou um importante núcleo de pesquisa. Apesar de razoavelmente enérgico, segundo a filha, era muito carinhoso, ótimo papo e inveterado contador de histórias. Foi autor de vários livros, especialmente sobre o Brasil na época em que o Marquês de Pombal era primeiro ministro em Portugal.
A mãe de Barbara era a poeta e tradutora Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça, que deu de presente para a filha de doze anos as obras completas, em inglês, de Shakespeare, de quem traduziu, entre outros livros, o Hamlet. “Eu fui lendo os livros aos poucos porque ainda não dominava o idioma, que aprendia na escola. Quando consegui avançar, me apaixonei perdidamente”.

Anna Amélia nasceu no Rio, e, ainda criança, foi levada pelos pais José Joaquim e Laura Queiroz para o interior de Minas Gerais. José era engenheiro e estava decidido a realizar o sonho de criar uma usina siderúrgica em Itabirito, cidade fincada numa região farta em minério de ferro. Anna e a irmã foram educadas por governantas, com quem aprenderam inglês, francês, história e literatura. Aos catorze anos, Anna publicou o primeiro livro de poesias. No ano seguinte, José Joaquim adoeceu gravemente e a família decidiu voltar pro Rio.

Antes da mudança aconteceu algo que definiria o futuro de Anna. O foot-ball acabara de ser introduzido no Brasil e ela havia ensinado o esporte aos operários da usina após ler as regras num livro em inglês. Quando chegou ao Rio, passou a freqüentar os jogos. Numa partida em que jogava o América, ela foi apresentada ao jovem goleiro, nascido em dezembro de 1894 numa família tradicional de Cataguases, Minas Gerais, terra de Rosário Fusco, e estudante de engenharia que se mudou pro Rio aos seis anos. Marcos depois se transferiu para o aristocrático Fluminense e ajudou o time a ganhar competições, e, à seleção brasileira, o sulamericano. Os dois se casaram em 1917. Ele encerrou a carreira como jogador em 1928, mas continuou ligado ao clube, que presidiu de 1941 a 1943.

Com alguns livros de poesia publicados, Anna Amélia foi coroada “Rainha dos Estudantes”, na homenagem anual em que se escolhia uma poeta. Preocupada com problemas sociais, talvez tenha sido a única homenageada a levar o título a sério. Ajudada pelo diretor e crítico teatral Paschoal Carlos Magno, por Paulo Celso Almeida Moutinho e outros, fundou a Casa do Estudante do Brasil. A idéia era apoiar os estudantes, que, na época, não contavam com assistência pública. O grupo conseguiu que amigos flexibilizassem horários para os estudantes trabalharem sem perder as aulas, além de obter serviços médicos, odontológicos e criar o primeiro restaurante com preços reduzidos. “Foi uma das primeiras mulheres a dirigir um carro no Rio, escreveu para jornais quando isso ainda não era moda, e era apaixonada por antiguidades, em especial as brasileiras”, diz Barbara, que lamenta o fato do trabalho com a Casa do Estudante ter limitado o tempo que a mãe dedicou à poesia.

Marcos e Anna adoravam viajar pelo Brasil e para outros países. A volta era sempre festejada pelos filhos, que ganhavam presentes, histórias e imagens reproduzidas nas fotos. “Herdei da minha mãe o interesse pelas artes e do meu pai a paixão pela pesquisa e pelo esporte”. Barbara, que passou a infância numa casa na rua Marquês de Abrantes, bairro do Flamengo, fez natação durante anos e chegou a treinar esgrima no clube do Fluminense, no bairro vizinho de Laranjeiras.

Ela cursou o primário no Colégio Andrews, e o ginásio, no Colégio Jacobina, na então capital da República. Tinha catorze anos quando Getúlio Vargas comandou a instauração do Estado Novo, em 1937. Fez o curso de anglo-germânicas da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, atual UFRJ, e depois graduou-se em Artes, em 1943, pelo Connecticut College for Women, atual Connecticut College, em New London, Connecticut, Estados Unidos. Para revalidar o diploma, em 1972 tornou-se bacharel em Letras/Inglês pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Educação sentimental

Casou-se pela primeira vez em 1945, fim da segunda guerra mundial, com João Scott Bueno, piloto falecido, com quem teve as filhas Priscilla e Patrícia. Mais tarde uniu-se ao pintor americano George Kenneth Potter, pai da terceira filha, Helen Márcia. O terceiro casamento foi com um cientista brasileiro, cujo nome eu não descobri.

Em 1948, dona Barbara atuou como a rainha Gertrudes, na estréia da peça “Hamlet”, no Teatro Municipal de São Paulo. Montagem do Teatro do Estudante do Brasil, direção de Sérgio Cardoso. Barbara estava grávida e enjoava muito. Resistiu uma semana no papel e foi substituída por Cacilda Becker. “Não é qualquer um que pode se dar a esse luxo”, graceja. “Felizmente, para os espectadores, eu saí. Nunca tive prazer de estar no palco e doar alguma coisa. E isso é fundamental”.

Freqüentadora do Tablado, de Maria Clara Machado, Barbara gostava de assistir e conversar sobre as peças e leituras. Os amigos insistiram que ela devia começar a fazer crítica. Havia uma vaga na Tribuna da Imprensa, o jornal do incendiário Carlos Lacerda. Trabalhou lá de outubro de 1957 a fevereiro de 1958. Mas recusou a proposta de um editor recém-contratado para que deixasse de lado as críticas e se dedicasse a contar o que acontecia nas coxias. “Decidi sair quando ele propôs que eu escrevesse fofocas teatrais”. Para o novo editor, a vida sexual, os desentendimentos e brigas entre os profissionais eram assuntos mais importantes.

Nem sentiu o que era ficar desempregada. O crítico Geraldo Queiroz deixou vaga a coluna de teatro que fazia no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que tinha Reynaldo Jardim como editor. Lá ficou de março de 1958 a junho de 1961. Logo passou a escrever no Caderno B do jornal na vaga de Mário Nunes, crítico por quarenta anos que se aposentara. Barbara marca a entrada no JB como o início da carreira. Trabalhou lá de junho de 1961 a maio de 1964.

Quando começou a fazer crítica, o ambiente teatral, segundo ela, era estimulante. “Havia muita montagem de texto bom, o nível de interpretação estava se beneficiando da presença de Ziembinski e dos vários diretores italianos”. O polonês Zibgniew Ziembinski foi fundamental na mudança e na elevação da qualidade do teatro brasileiro, segundo nos conta o também crítico Sábato Magaldi em “Panorama do teatro brasileiro”.

Ziembinski conhecia e dominava os segredos do palco e introduziu no Brasil, em 1943, as modernas técnicas de encenação. Os outros italianos de que fala Barbara são Adolfo Celi, que se casou com Tonia Carrero, Luciano Salce, Flamínio Cerri, Ruggero Jacobbi, além do cenógrafo Gianni Ratto, que também se revelou ótimo diretor. Todos vieram pelas mãos do industrial italiano Franco Zampari, residente em São Paulo e criador do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1948, grupo fundamental na história do moderno teatro brasileiro.

Foi uma fase de transição, em que os velhos diretores e críticos lutavam contra o rolo compressor personificado nos novos dramaturgos, profissionais e críticos, que tinham seus representantes num grupo de jovens que decidiu sair da Associação Brasileira de Críticos Teatrais (ABCT) por discordar dos métodos antiquados e da politicagem em torno, principalmente, das premiações dos melhores do ano. Faziam parte Gustavo Dória, Henrique Oscar, Paulo Francis, Luiza Barreto Leite e ela, dona Barbara.

Pelas regras da ABCT, qualquer cabra que tivesse um texto publicado sobre qualquer peça, até as feitas em escolas de primeiro grau por crianças de fralda, era considerado “crítico” com direito a voto. Esses críticos de ocasião assinavam dezenas de procurações que eram usadas por um grupo de críticos atuante no Rio para eleger, politicamente, os “melhores” do ano.

Dória, Oscar, Francis, Leite e Barbara lutavam por um teatro melhor e decidiram criar o Círculo Independente dos Críticos Teatrais (CICT), que ela presidiu no biênio 1958/59 e em 1964. Eram críticos mais exigentes do que os da velha guarda, empenhados, senão em salvar o mundo, ao menos o teatro brasileiro das montagens medíocres e da comédia de costumes.

Eles estavam preocupados não só em informar, como formar um novo público e, por tabela, reciclar o que existia. Passaram a ministrar cursos sobre história do teatro e criaram o prêmio Padre Ventura, com escultura criada pelo artista plástico mineiro Calixto, para homenagear os profissionais de destaque no ano. Para não cair na mesma esparrela do ABCT, deram poder de voto somente para os críticos que estivessem assinando uma coluna numa publicação do Rio.

O prêmio teve quatro edições. “Foi realmente uma época muito interessante”. Época em que Barbara elegeu as atrizes Cacilda Becker e Fernanda Montenegro como as preferidas na ala feminina e, na dos homens, Ítalo Rossi e Walmor Chagas — décadas depois, Marco Nanini e Pedro Paulo Rangel. “Acho ver bons atores uma experiência fantástica”. Barbara se afastou do CICT quando deixou o JB, em 1964. O desânimo tomou conta dos críticos e o grupo se desfez.

Fora do jornal, dentro da universidade

A saída do jornal naquele ano foi para ela assumir a direção do conservatório do Serviço Nacional do Teatro, posteriormente englobado pela Federação de Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara (FEFIEG), que trocou o Guanabara por Rio de Janeiro no sobrenome, para finalmente ser batizada de Uni-Rio. Foi professora de várias disciplinas ligadas ao teatro até 1985, inclusive na USP, quando se aposentou. Embora tenha dedicado 21 anos de sua vida ao magistério, não era lá, ao que parece, que seus já experientes olhos brilhavam.

Quando ainda não pensava no que fazer durante a aposentadoria, o jornalista e amigo Oswaldo Mendes, editor da Visão, insistiu para que ela assumisse a crítica de teatro da revista. Obviamente, aceitou. Escreveu para a publicação de março de 1986 a 1990, ano em que recebeu convite para levar seus textos ácidos e rigorosos para o Segundo Caderno de O Globo, convidada pelo então editor Ali Kamel, hoje diretor de jornalismo das Organizações Globo. Eventualmente, escreve artigos encomendados pelo Estadão, Folha de S. Paulo, publicações acadêmicas brasileiras e publicações estrangeiras especializadas, como Shakespeare Survey, Shakespeare Quarterly, Shakespeare Translation, TDR.

Paralelamente ao trabalho de crítica e de professora, Barbara escreveu quatro livros (A expressão dramática do homem político em Shakespeare, Falando de Shakespeare e Martins Pena, uma introdução, Reflexões Shakespearianas) e traduziu 41 obras, sendo 21 das 37 peças de Shakespeare. “Tenho esperança de traduzir as que faltam”, diz. “Gosto muito de traduzir livros, peças, e me divirto muito colecionando barbaridades nas traduções da TV, como ver ‘old maid’, solteirona, traduzido como ‘velha criada’”.

Também fez trabalhos na TV. Na Cultura, de São Paulo, apresentou o teleteatro Um bonde chamado desejo, com direção de Kiko Jaess; o teleteatro Recordar, dirigido por Ademar Guerra; e a série O teatro e o ocidente, na qual redigiu e dirigiu as cenas ilustrativas sobre a história do drama e do teatro. Nota curiosa: por encomenda, fez análises comparativas de textos que foram usados como peças de defesa pela Rede Globo de Televisão em processos por supostos plágios nas telenovelas O Casarão, de Lauro César Moniz; Bicho do mato, de Chico de Assis; Estúpido culpido, de Mário Prata; O clone, de Gloria Perez; e da minisérie Aquarela do Brasil, de Lauro César Muniz.

New Yorker, National Geographic Magazine, The Economist são as publicações estrangeiras mais lidas com prazer. Das nacionais, os jornais O Globo, e, eventualmente Folha de S. Paulo e Estadão. Das críticas, gosta das publicadas na New Yorker e em The Economist.

Barbara trepida quando relembra a cena teatral carioca nas décadas de 1950 e 1960. Viu surgir Ariano Suassuna; assistiu montagens memoráveis de Shakespeare, Moliére, Beckett; foi testemunha do nascimento, consagração ou morte de atores, diretores, cenógrafos, figurinistas e de promessas que não passaram da primeira provação — como uma procissão que não vinga pela falta de fiéis.

Sente-se envergonhada com a pobreza cultural do país, vergonha que ela arrisca dividir com seus compatriotas, estendendo uma preocupação que só incomoda mesmo alguns abnegados, como ela. Muito preocupante para ela é o descaso dos governos estadual e federal. “É deprimente”. Discorda da forma como o pouco dinheiro público disponível é aplicado. “Muito mal atribuído e distribuído. As leis que beneficiavam o teatro perderam a validade. A etiqueta ‘experimental brasileiro’ abre portas e recebe ajuda a despeito de qualquer mérito ou qualidade, e todo um grupo ataca qualquer bom teatro, qualquer bom texto, com esse lamentável rótulo de ‘teatrão’, no qual o pior boulevard e o melhor Tchekov são igualados”, lamenta. “O teatro está sendo transformado em veículo de rebaixamento, e não de elevação de nível cultural”.

Barbara Heliodora completará 85 anos em agosto. Admira como mantém o vigor intelectual e a mesma aguerrida jovialidade, o mesmíssimo destemor quando senta em frente ao computador de sua sala de trabalho, com os cerca de oitocentos livros que forram a parede de cerca de cinco metros de altura. Quando estive lá, há dois anos, uma poltrona antiga ficava em frente à TV. Ao lado de sua cadeira, uma outra, forrada com uma pequena coberta azul, servia de cama para o basset Toco, que não podia ver um braço dando sopa que já se projetava imaginando ser uma cadela.

Os textos que fazem tremer o teatro carioca são elaborados em sua casa. O segundo andar do sobrado era alugado para um cantor de ópera, que prometeu sequer ensaiar ali, mas podia ser ouvido tonitroando notas graves para alunos particulares. A alguns metros da residência, fica o casarão onde morava seu antigo patrão, Roberto Marinho, falecido em 2003. É lá que dona Barbara compõe os textos que, publicados em O Globo, vão levar profissionais a sorrir desatinados ou a compartilhar com Raskolnikov a idéia de que alguns crimes são perfeitamente justificáveis.

Ela faz o chão tremer

A acusação mais comum que lhe dirigem é a de ser passional; de ignorar a existência da crítica construtiva. Imaginemos dona Barbara pegando cuidadosamente sua paixão pelo teatro, colocando-a numa caixa, para só depois começar a escrever. Os leitores teriam tanto prazer em ler suas críticas quanto a leitura de um manual de instalação de tubos e conexões. “Não escrevo com raiva”, afirmou numa entrevista para a Istoé em 2003. “Talvez eu faça um pouco menos de cerimônia. Se uma pessoa faz uma coisa que está toda errada e você, para ser bonzinho, diz que é ótima, ela vai piorar cada vez mais”. Para ela, há muita autoindulgência no teatro brasileiro. Ela dirigiu quinze peças, de autores tão diferentes quanto Maria Clara Machado, Peter Schaffer, Agatha Christie, Tchekov, Moss Hart e Geroge Kaufman, August Strindberg e, claro, Shakespeare.

O ator Sérgio Britto disse numa entrevista para a Veja Rio em 1996 que a opinião crítica de Barbara, amiga de longa data, estava envelhecendo. Mas, em depoimento de 2004 para o site de Barbara, criado pela filha Patrícia, atriz, disse que ela é uma crítica justa e diz sempre o que pensa, sem ficar em cima do muro. “Concordar sempre com ela não é obrigatório, o difícil é não admitir que quase sempre ela está certa, completamente certa”.

Os diretores Claudio Botelho e Charles Möeller brincam, em depoimento para o site, sobre a fama de Barbara. “O Rio de Janeiro tem esse luxo: um crítico de teatro que todo mundo conhece. E que todo mundo lê. E que se tornou sinônimo de bom ou mau teatro para muita gente. Barbara Heliodora é assunto em salão de cabeleireiro, em sala de espera de dentista, em papo de elevador. Não há vizinho de prédio que não venha nos dar um tapinha nas costas quando sai uma crítica positiva dizendo: ‘a Barbara gostou, hein’!”.

Ela não se incomoda com as reações dos criticados e acredita num propósito maior, numa espécie de missão, que está longe de ser divina. Por mais porcarias que seja obrigada a assistir, mantém a fé inabalável num nível alto de exigência para livrar o teatro nacional da mediocridade, mesmo que os medíocres se reproduzam em progressão geométrica.

Mas basta uma boa peça para transforma-la numa jovem saltitante, lépida e fagueira. Tudo pelos olhos. Barbara Heliodora saltita com os olhos, os mesmos olhos que vê mais do que os outros, que percebe a dimensão grandiosa que uma peça poderia ter e, freqüentemente, não tem. Assim, os olhos não mais sapateiam animados, como uma versão ocular do casal Fred e Ginger; pisam firme em direção aos dedos que espalham fagulhas enquanto digitam palavras duras, duras mas necessárias, nesse intenso e nem sempre equilibrado relacionamento entre críticos e artistas; um embate tão vigoroso e violento quanto infindável.

Pode ser que nem todos os julgamentos de Barbara Heliodora se mantenham numa avaliação futura, mas, como os críticos Bernard Shaw, na Inglaterra, e George Jean Nathan, nos Estados Unidos, sua coragem e inteligência se manterão como virtudes admiráveis num país tão cordial.

8 Comments so far

  1. Igor Taam Junho 25th, 2007 7:05 am

    Rapaz, o blogue está uma jóia; esse último texto, ótimo. Não tinha idéia da história e trabalho da Barbara Eliodora. Infelizmente, me desinteressei por teatro muito cedo. Sempre achei impossível que alguém gostasse sinceramente de assistir teatro (ou cinema) no Brasil. A vantagem do cinema, é que posso pegar uma obra sueca, russa, francesa, americana, ou de onde vier, e trazer para casa. Enfim, se tivesse descoberto o teatro por ela, certamente veria tudo com outros olhos. Vou caçar os textos dela.

  2. FDR Junho 25th, 2007 11:49 am

    Excelente! Pare de postar textos tão bons, rapaz! Eu tenho que trabalhar! Tô em horário de serviço!
    Abs!

  3. Bruno Garschagen Junho 25th, 2007 5:43 pm

    Caro Igor, obrigado pela visita. Barbara é uma boa leitura, mas até quando escreve textos chatos, ela, pela postura crítica e honestidade, vale a pena de ser lida. Um abraço.

  4. Bruno Garschagen Junho 25th, 2007 5:44 pm

    Caro Fábio. Saudade de você. Quando se perde um amigo, como aconteceu comigo hoje, dá vontade de correr para os que continuam aqui, na mesma trincheira. Logo logo estarei aí em SP. Abração.

  5. » Em defesa de Macbeth Julho 30th, 2007 10:41 am

    […] Fui crítico de teatro da Gazeta Mercantil durante quase um ano aqui no Rio. A única coisa boa foi ter conhecido pessoalmente Barbara Heliodora, de quem fiz um perfil. […]

  6. Humberto Aveiro Dezembro 28th, 2007 8:20 pm

    Excelente texto. Parabéns.

  7. Ai ai... Janeiro 14th, 2008 9:42 pm

    Essa mulher me encanta e forma meu caráter…

  8. » Geraaaaaaaaaaaaaaaaldo! Fevereiro 26th, 2008 7:15 pm

    […] que se converteu numa instituição canônica, nunca caiu na fanfarronice da Cabana do Pai Tomás. Num perfil sobre ela contei a história de quando o moço desejou publicamente sua morte: O sempre combatido, e […]

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