Há poemas que emocionam; outros não

Há poemas que não me emocionam. Eu os respeito por seu significado, mas não são poemas que marcam, daqueles que me pego pensando, recitando de várias maneiras e assim decobrir as imensas possibilidades da música, da cadência ritmada. Não só isso, mas proceder à releitura para arriscar novas interpretações, mesmo que estas não dêem em nada.
Essa reflexão surgiu ao reler, a convite de Pedro Sette Câmara, o poema Ítaca:
Ítaca
Konstantinos Kavafys / Tradução de Jorge de Sena
Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado — não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria — nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
É curioso ler um poema, perceber nele a grandiosidade, mas não sentir absolutamente nada. É fato que isso acontece normalmente quando não se tem um background histórico que permita usufruir dos significados, referências e alusões trazidos pelo poema. Mesmo assim, mesmo quando conheço o poema e ele não me emociona, não me seduz, fico à deriva, perdido entre a reconhecida grandiosidade e a falta de recepção. Quando isso acontece, deixo o poema, ou poeta, de lado, e volto a ambos anos depois. Foi assim com Mário Faustino, em cuja poesia só consegui “entrar” três anos depois da primeira leitura. O caso de Ítaca é mais recente, portanto, minha opinião pode se converter futuramente. Mas, por enquanto, leio com prazer imenso o texto do Pedro sem dar muita bola para o poema analisado. Gozado isso.
PS: Pô, Pedro, só voltar dia 11 é brincadeira!
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