Cientista brasileiro fecha o caixão da literatura ateísta miltante

A Folha chegou atrasada ao tema das celebridades do ateísmo, mas obteve boas informações entrevistando os autores dos livros:
Dawkins e Hitchens guiam ateístas
Biólogo norte-americano e polemista ensaísta britânico levam argumentos ceticistas a extremos e viram best-sellers
Para Marcelo Gleiser, “novos ateístas” não representam comunidade científica e colecionam inimigos pela arrogância
SYLVIA COLOMBO e MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL“Graças ao telescópio e ao microscópio, a religião não oferece mais explicações para nada importante”, diz Christopher Hitchens em “God Is Not Great” (leia resenha abaixo).
O polemista britânico, conhecido agitador político de direita, conhece hoje, por conta de suas provocações à religião, um sucesso nunca antes alcançado por seus mais de 20 livros e inúmeros ensaios publicados em jornais e revistas.
Gosto muito de Hitchens, o que talvez não tenha ficado claro quando tratei do tema aqui. Gosto muito de suas análises políticas, de seu humor, de seu mergulho profundo nos assuntos, coisa de quem conhece teoria e sabe aplicá-la à prática. Gosto ainda da postura de quem não tem medo do embate, que sempre está na ponta dos cascos para uma discussão. Dito isto, sigamos adiante.
A frase “Graças ao telescópio e ao microscópio, a religião não oferece mais explicações para nada importante” não quer dizer nada. A rigor, a religião não tem essa função utilitarista, embora num período da história as instituições religiosas tenham assumido para si tal missão. Dizer algo desse tipo hoje em dia, quando a situação já virou pó na história, é primário, coisa que não combina com Hitchens, e talvez por isso eu tenha ficado tão irritado por ele ter entrado nessa barca furada completamente desprovido de consistência.
O argumento principal de “God Is Not Great” é que a religião serviu ao homem como explicação do mundo quando a ciência não existia. Depois disso, não só teria se tornado inútil como passado a ser um entrave para o conhecimento.
Não é natural que a religião tenha assumido um papel educador, mesmo que eivado de interesses e equívocos, numa época em que não havia uma ciência formal a fornecer explicações? Essa coisa de culpar a religião pelo entrave do conhecimento merece um debate para o qual, hoje, confesso, não estou preparado. Se você, caro leitor estudioso, quiser ajudar, agradeço. Prometo mergulhar no tema e voltar ao assunto mais tarde.
Com ironia e pegadinhas retóricas, Hitchens lança desafios: “Se Deus é o criador de todas as coisas, por que devemos celebrá-lo incessantemente por fazer algo que para ele é tão natural?”. Também acusa tanto o islamismo como o cristianismo de impedirem que avanços da ciência ajudem a sanar feridas do Terceiro Mundo. Os extremistas islâmicos, por resistir a receber ajuda dos países ricos, achando que a medicina ocidental faz parte do projeto de dominação capitalista dos EUA, e a Igreja Católica, ao condenar milhões à morte por ser contra o aborto e o uso da camisinha, baseada em dogmas irracionais. O ensaísta se refere ao papa Bento 16 como “reacionário medíocre”.
Hitchens faz indagações cuja resposta esá embutida no questionamento. É, como bem diz a reportagem, uma pegadinha retórica, pegadinha retórica muito fraquinha, que nem sei se pode ser qualificada de pegadinha (só se for para pegar os incautos , eheheh!). Por que devemos celebrar Deus incessantemente se ele é o criador de todas as coisas? Porque ele é o criador de todas as coisas, ora bolas. Agora, repare que Hitchens, com a pergunta, tenta conduzir a resposta. Ao escrever “por que devemos celebrá-lo incessantemente por fazer algo que para ele é tão natural?” tenta invalidar uma celebração justificada para quem acredita em Deus. O celebrar incessantemente é por conta de Hitchens, que cria a caricatura do crente de forma a desqualificá-lo. Se para Deus é natural fazer o que faz isso invalida a celebração? E quem disse que os atos de Deus são naturais? Hitchens, o ateu, assume um conhecimento sobre Deus maior do que os “crentes ignorantes”, non è vero?
A pergunta, aliás, sai do campo do ataque a Deus para o ataque contra quem nele crê. É lícito? Sim, claro. Esclarecedor? Não. É uma confusão armada, de forma porposital ou não.
Hitchens pega carona no sucesso de Richard Dawkins, cujo “Deus, um Delírio”, que chega aqui em agosto, vendeu meio milhão de exemplares nos EUA e mais de 300 mil no Reino Unido. Biólogo especializado na teoria da evolução, Dawkins diz que a intenção de seu livro é convencer as pessoas de que devem libertar-se totalmente desse “vício” que é a religião e acrescenta que Deus é homofóbico, racista, genocida, entre outros atributos nada afáveis.
Também gosto de Dawkins, mas é outro que mete o dedo torto na cumbuca. Antes, um esclarecimento: sou a favor de qualquer debate, seja sobre religião, existência de Deus ou o melhor tipo de parafuso para plataformas de petróleo. Só espero que a discussão de um dado problema seja de alto nível, criativo e inteligente. Isto posto, sigamos.
A intenção de Dawkins “é convencer as pessoas de que devem libertar-se totalmente desse ‘vício’ que é a religião”. Durante anos achei religião uma grande bobagem, acho que já disse aqui. Fui vendo, porém, pessoas próximas que realmente precisavam da religião. Algumas para deixar de fazer bobagem, outras por uma necessidade puramente espiritual. É errado? Errado é fazer uma defesa intransigente e erga omnes dessa falta de necessidade. Eu não tenho religião, mas você não vai me ver aqui, como já fiz, pregando a sua extinção e colocando um princípio individual acima dos outros. Uma hora a criança precisa virar adulto, sob pena de ter que voltar para a creche.
E, francamente, garantir que “Deus é homofóbico, racista, genocida, entre outros atributos nada afáveis” é coisa de quem tem titica de galinha na cabeça. Qualquer pessoa pode achar o que quiser. Mas, como ja disse a respeito de Hitchens, acho gozado um ateu definir Deus de forma tão categórica. Pode-se argumentar que Deus é o que pensamos dele. E o que pensamos dele é a manifestação de nosso caráter, de nossa moral. Deus pode ser identificado, entre outras coisas, como o espelho melhorado do que somos. Quando ouço alguém dizer que “Deus é homofóbico, racista, genocida” fico a imaginar como é possivel lançar um jugo tão pesado sobre algo que se crê imponderável.
Quem brilha na reportagem é Marcelo Gleiser, colunista do jornal e professor de física teórica no Dartmouth College:
Para o colunista da Folha Marcelo Gleiser, o grupo de “novos ateístas” está causando uma “grande confusão”. “Estão exacerbando as já arraigadas posições anticientíficas dos mais religiosos e criando novos inimigos devido à arrogância.”
Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College (EUA), acha perigoso que eles sejam vistos como porta-vozes da comunidade científica. “Não é verdade. Do ponto de vista da ciência, a posição de ateu radical não faz sentido. Para se afirmar que Deus não existe, é necessário supor que detemos a totalidade do conhecimento, algo que é inatingível pelo fato de a ciência ser uma criação humana e limitada.”Para ele, o máximo que cientistas podem dizer é que “a existência de um Deus judaico-cristão é contrária ao que conhecemos do mundo”. Por outro lado, “não podemos afirmar que a informação atual da ausência de uma divindade é definitiva pois não temos informação sobre tudo. A única posição consistente com a ciência é o agnosticismo ou, no máximo, um ateísmo liberal, pronto a aceitar evidência em contrário, caso ela ocorra”.
Bravo, Gleiser! Ele retoma algo essencial a um cientista: a dúvida. Cultivar uma certeza inabalável sobre a inexistência de Deus, sem duvidar da possibilidade da existência, é contrariar a ciência.
4 Comments so far
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Bruno,
A Folha erra brutalmente quando diz que o Hitchens é de direita. Porque de fato ele ainda se considera um cara de esquerda. Foi pró-ocupação, é verdade. Rompeu com os leftists da The Nation, é verdade. Mas ele ainda é se considera de esquerda.
Se bobear ainda se considera trotskista!
Na verdade o Hitchens é um freethinker da melhor qualidade. E tenho dito.
Abração, Bruno.
Descontando, é claro, a chatice da militância ateísta. A propósito, o texto de JP Coutinho está na medida, rapaz.
Abraço e um bom fim de semana.
Bruno,
Dawkins é um paspalho (waal!), não porque seja biólogo evolucionista ou ateísta, de fato quando lemos o livro “So you think you´re a Darwinian” do filósofo australiano David Stove vemos que ele é ateísta e biólogo porque é um paspalho, no mais a falta de cientificidade de suas pesquisas sociobiológicas é tão gritante que ele acaba por fazer muito mais mal à ciência do que à religião.
Eduardo,
obrigado pelo comentário. Não conheço o Stove, mas já vou tentar arranjar esse livro. Valeu a dica!
Abração.
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Gabriel, você está coberto de razão e eu devia ter mencionado isso. Ah, já sei o que fazer. Olha lá depois. Abração.