André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente

Adoro colecionar textos, ou apenas frases, tanto defendendo quanto maldizendo a crítica. É comum escritores, por boutade, sinceridade ou rancor, lançarem vitupérios contra a dona crítica. É compreensível, até porque a maioria das críticas é muito chata, ilegível ou maldosa mesmo. Lembro do escritor Cesare Pavese comparando o crítico a uma mulher na idade crítica: rancoroso e reprimido, o que sempre achei uma maldade com a mulher na idade crítica. Ou o crítico inglês Kenneth Tynan ao definir o crítico como alguém que conhece a estrada mas não sabe dirigir. E ainda o escritor William Somerset Maugham quando disse que as pessoas pedem uma crítica, mas querem mesmo um elogio.
Garschagen, meu filho, onde você quer chegar? Já digo, já digo. Leio no Rascunho um texto de André Sant’Anna, que se apresenta e é apresentado como escritor. Leia o texto e volto logo depois:
PENETRAÇÕES - André Sant’Anna
Corajoso é o crítico literário Jerônimo Teixeira, que abriu mão do afeto de seus semelhantes literatos, que se despiu de toda a vaidade, abrindo mão até mesmo da possibilidade de expor, a nível de literato iniciante, jovem, a seus semelhantes críticos literários, qualquer trabalho que venha a fazer, a nível de literato semelhante meu, em troca de viver sua vida a redigir a opinião de seu superior, a nível de hierarquia, o chefe, na revista de alta circulação nacional, que a média burra dos consumidores de revistas nacionais julga ser inteligente e, ganhar no final do mês, a nível de trabalho honesto, o salário mais ou menos que a Veja paga a ele, crítico literário, ainda jovem intelectual formador de opinião, com alto poder de penetração nacional, o que não deixa de ser mais ou menos legal e suficiente para dar conta, mais ou menos, da vaidade, que todos nós, a nível de gente do meio literário, temos, claro, coisa normal, essa vaidade, já que ninguém é livre desse pecadilho, a nível de artista ou formador de opinião nacional, com alto poder de penetração inteligente.
Corajoso é o experiente jornalista e semelhante meu, a nível de literato, Mario Sabino, chefe do crítico literário Jerônimo Teixeira, ao atrair para si, a nível de chefe de revista burra para consumidores médios de revistas nacionais que se julgam inteligentes, o ressentimento de seus semelhantes literatos, aos quais trata com desprezo monumental, com um grande desprendimento de vaidade, já que possui a coragem de assumir publicamente, a nível de programa inteligente de literatura da televisão, programa que só gente inteligente, a nível de se interessar por literatura, assiste, que ele, o maduro jornalista, o inteligente semelhante meu, a nível de universo literário, é melhor, superior, a todos os seus, dele, do chefe formador da opinião de seus subalternos formadores de opinião com alto poder de penetração nacional, alto poder de viver uma vida legal, vida de formador de opinião, em São Paulo, de noite, assim no inverno, aquele friozinho, aqueles bares legais, um grupo novo de amigos, o crítico literário, lá, desbravando aos poucos as entranhas da grande capital, da cultura multidisciplinar do friozinho de inverno, na noite de São Paulo, aquelas sacadas sobre a literatura, a arte, a morte, os semelhantes inferiores, semelhantes literatos. Pô, se o Mario Sabino escreve melhor do que os outros, por que não assumir publicamente essa superioridade? Só as pessoas corajosas têm a coragem de se exibir, em um programa inteligente literato, assistido apenas por literatos inteligentes, a nível de literatura, dizendo que seus colegas de arte sofrida, apenas um lápis, um papel e a madrugada sombria, ruídos distantes na madrugada cor de laranja da grande metrópole nacional, continental, internacional, mundial, cosmopolita, penetrada semanalmente pela opinião corajosa e, por que não?, desmistificadora, iconoclasta, sim, purificadora opinião do experiente e corajoso editor cultural praticamente internacional, são farsantes corruptos, literatos exploradores do dinheiro público, atrasados vanguardistas, usurpadores da arte, essas paradas. Agora o cara vai ficar meio sem graça de aparecer por aí, vai pagar o preço por sua destemida coragem.
Corajosos são esses formadores de opinião literária, com alto poder de penetração, a nível de suplementos, blogs, revistas e jornais inteligentes, a nível cultural, que têm a coragem de desagradar a todos os seus contemporâneos, a nível de gente inteligente, a nível de meio literário, a nível de literatos, afirmando, sem qualquer sombra de dúvida, que somos todos, a nível de literatos contemporâneos, muito inferiores ao Machado de Assis.
Alguém, afinal, precisa falar a verdade, doa a quem doer.
Corajoso sou eu, escritor de vanguarda, experimental, transgressor, jovem, contemporâneo, que, ao invés de ganhar uma graninha estável, redigindo, com facilidade extrema, as opiniões corajosas de algum chefe de revista com alto poder de penetração nacional, ou até estadual, já vale, uma graninha mais ou menos, que dê pra sair de noite no inverno gostosinho de São Paulo, a arte, a morte, a literatura, pensando grande, pensando maior, varando madrugadas a escrever um grande romance, sem concessões ao gosto médio dos consumidores burros de revistas inteligentes, para ser reconhecido por semelhantes literatos, inteligentes, que varam madrugadas, sem dinheiro, pensando na arte, na morte, na literatura, nos livros dos outros, para ser ridicularizado na Veja, compreendido por semelhantes pobres, tímidos, com baixo poder de penetração sexual, e depois ir para o escritório na segunda de manhã, para ganhar uma graninha, para não precisar redigir a opinião corajosa de um chefe intelectual com alto poder de penetração anal, a nível de formador de opinião nacional.
Essa de falar do Mario Sabino e do Jerônimo Teixeira, que me chamaram de débil mental, na revista independente de alto poder de penetração nacional, foi corajosa, hein!?!?
Pois é. É lamentável que um escritor criticado prefira partir para o ataque pessoal a defender sua obra. E quando não há obra a defender? Aí é um problema sério. Há pouco mais de um ano a Veja deu um cacete justo no moço, que não só faz biquinho como acusa Jerônimo Teixeira de estar a serviço, não de sua consciência e preferências estético-literárias, mas do seu chefe, o redator-chefe de Veja, Mario Sabino, jornalista culto e de texto impecável. E aí você me pergunta: quem diabos é André Sant’Anna? E eu, em vez de ficar aqui enumerando os defeitos de seu trabalho, prefiro expô-los em praça pública. Olha só como esse moço escreve:
No banheiro do palácio da rainha da Inglaterra:
” George, porra, passa o baseado.”
” Peraí, acabei de acender.”
” Vai logo, senão chega o guarda.”
” Deixa de ser paranóico, John. Daqui a pouco você vai ser Lord Lennon.”
” Só se for o Lord da privada.”
Barulho de descarga.
” Cacete. Não faz barulho.”
” E agora com vocês, o fabuloso de Liverpool, o nowhere man, mais famoso que Jesus Cristo, Lord John Lennon - o nobre beatle de olhos vermelhos da privada do Palácio de Buckingham.”
” Eu queria ser um polvo.”
” Ih! O Ringo tá doidão.”
” Eu sou um polvo, eu sou um polvo.”
Tem mais Garschagen? Ô…:
Porra… É só ir lá e ver. É ou não é? Tudo é assim. Ta tudo lá, claro e evidente, você tá me entendendo? Todo mundo não sabe que tudo que é policial rodoviário leva caixinha? Porra… É claro que sabe. Se você for parado na estrada, seu carro tá com problema, o policial descobre… Você não vai ter que dar uma grana pro cara, pra não ter que pagar uma grana maior de multa? Porra… É claro que vai. Corrupção, porra… Todo mundo não sabe que, pra ganhar eleição, você vai ter que arrumar uma grana preta e que pra ganhar essa grana preta, você vai ter que fazer uns acordos estranhos com umas empreiteiras, uns financiadores escondidos, essas parada? Caixa dois, essas porra que todo mundo sabe? Você não sabe que, pra governar o país, a nível federal, o cara vai ter que comprar o Congresso todo? Deputado, senador e o caralho… Porra… Se todo mundo sabe, se eu sei, se tudo que é jornalista sabe, porque é que fica todo mundo espantado, falando isso e aquilo na televisão, quando algum filha da puta fala que algum desses filha da puta aceitou uma graninha pra fazer uma parada?
Nossa!, Garschagen… Está achando muito? Ô…:
Era de noite, chovia, dentro do ônibus, olhando pra fora, em Copacabana. Tinha visto um filme do Buñuel e nem sabia que era do Buñuel, nem sabia que havia o Buñuel. Gostou das duas atrizes que faziam o personagem feminino principal. Estava apaixonado por elas.
Em casa, explicou quem era o Buñuel.
Não se importou que tivesse matado aula para ver o filme do Buñuel.
Era pra ver qualquer filme, não o do Buñuel especificamente. Deu sorte com o diretor e eram muito lindas mesmo, muito charmosas mesmo, que fazem ficar apaixonado. Podiam ensinar tudo e dar muito carinho e ser mães e ser namoradas amantes professoras.
Sabia que ia ser assim, se acontecer de novo, não vai perceber, está sempre acontecendo. Estavam esperando, não está mais começando, não vai virar mito. Não dá pra inventar toda hora. O que deve ser ser dos Beatles? O George Harrison, pensa no Itamar Assunção, lembra da Alzira, naquela noite, tão relaxado com as mulheres, nadou nu no mar. Perguntou quem era. Foram à praia, à cachoeira, deu um passe de calcanhar, jogou muito bem, brigou com o amigo, falou no telefone, outro dia, uma saudade, do amigo, fazendo coisas muito bacanas, conseguiu ficar músico, andando pela calçada, em Copacabana. Ficou lá deitado na banheira de hidromassagem, podia continuar pra sempre, eterno, tudo, inventando de novo.
Literatura, o caralho.
O texto de André Sant’Anna é ruim, mal construído. Sua obra padece de uma pobreza, de um primarismo estético, deplorável. E não é só isso. O moço salpica palavrões como um pizzaiolo o faz com o orégano. O palavrão é o alicerce de sua produção literária, e é o que a define, justifica e celebra. André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente. Se hoje fossem abolidas as palavras “porra” e “caralho” o moço teria que vender laranja na praça. Digo e repito: André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente.
Antes de se tansformar no Paulo César Pereio da literatura brasileira recente, Sant’Anna tocou baixo, compôs músicas e trabalhou com publicidade. É o caso de fazer o caminho de volta.
26 Comments so far
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Estou pasma! Como esse André Sant’Anna consegue ser tão ruim?!!! Cruz credo!!!
Pois é, Carla, pois é. É esse escritor que sai por aí dando palestras sobre literatura… Bjs.
Rapaz, meus parabéns. É difícil jornalista ou blogueiro dar nome aos bois. Justamente porque toda crítica à obra é tomada como crítica pessoal. E, nisso, a indisposição com um sujeito só acaba levando à indisposição com os comparsas do sujeito. E, do nada, você está cheio de inimigos. Mas, enfim, chega um momento em que as coisas que gostamos vão tão mal das pernas, por conta dessa gente, que vira obrigação criar o maior número de inimigos. Abraço,
Os excertos, você deve ter recolhido com luvas, não é mesmo, Bruno?
Mas falando sobre o artigo ressentido em “Rascunho” (nome sugestivo), aquela profusão de “a nível de” (mesmo usado uma única vez já me sangra os ouvidos) é alguma ironia ou o rapaz gosta tanto assim dessa horrível expressão? Como diria a vizinha gorda e patusca de Nelson Rodrigues, há gosto pra tudo.
Ludovico, meu caro, obrigado. Logo estarei aí andando de chapéu e botas e serei conhecido como o Rei do Gado da blogosfera por dar nomes aos bois, eheheh!
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Neno, eu usei um robô, rapaz. Luvas não iriam resistir. O “a nível de” é tentativa de ironia barata, só isso. Abração.
Foi o que pensei, Bruno. Costumo dizer que a ironia não é recurso para os pouco hábeis. Dá nisso que vimos. Ele precisou repetir incontáveis vezes. Nas mãos dos que dominam a arte, seria sutil, seria belo. Nas dele, fico sem saber se todo o resto (inclusive a ficção do autor) foi mal escrito por ironia.
Porra… Esse aí é escritor, porra?
cristo!
(aliás, fui pro rio e mal vi o cristo, bah!)
Realmente o texto desse André Santana é de chorar de tão medíocre. Mereceu o post.
Olá, Bruno
preocupante não é o fato desse rapaz se achar capaz de dar palestras sobre literatura. Preocupante mesmo é a conjunção de dois outros fatos: que haja alguém que o chame a palestrar e que haja um outro bom tanto de gente que se dispõe a ouvir o que ele tem a dizer sobre, err, hmmm, literatura.
Bruno, meu amigo. Você é muito corajoso também, por dar nome aos bois e desmistificar esses escritores metidos a vanguardistas. Continue assim. Você viu como tanta gente concorda com você. e quando sai o livro? Te amo.
André Sant’Anna
clap* clap* clap* clap* clap*
é o tipo de escritor que dispensa crítica. o que ele escreve é tão ululantemente ruim, que a próprio obra se encarrega de desempenhar o deserviço.
Abçs!
Gracias pela comedia. Na metade do post achei que fosse piada, mas a realidade definitivamente e mais engracada (teclado sem acentos, sorry).
Bruno,
conforme dito, descobri seu site via pedro sette camara, e gostaria que desse uma olhada num romance meu, o segundo, flaXflu. Sou de Goiás e gostaria mesmo que desse uma olhada.
Entra em contato, se puder, via email
Abracao
Roberto Assis
[…] dia 28 de julho escrevi o texto André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente. Na caixa de comentários recebi isso: André Sant’Anna Julho 31st, 2007 1:24 […]
Concordo com a Evelyn. Para esse rapaz nenhuma crítica é mais devastadora do que a transcrição.
[…] mais um comentário de André Sant’Anna, a quem chamei de o Paulo César Pereio da nova (?) geração de escritores brasileiros por conta da enorme quantidade de palavrões na literatura daquele e nas atuações deste. É a […]
ele consegue superar rubem fonseca.
Discordo de vocês: senti nesse blog e nesses comentários um subreptício desprezo pelo autor brasileiro em geral. Adorei a defesa de André Sant´ Anna. Veja merece esse ataque, aquela revistinha ruim.
O trecho lá dos Beatles fumando baseado no banheiro do palácio é muito engraçado. É boa piada. O problema é a crítica aceitar isto como literatura séria. Acho que além de Paulo César Peréio, este escritor tem Osvald de Souza como ancestral estilístico. É uma longa tradição na literatura brasileira.
A melhor confirmação de que o autor está no caminho certo são esses comentários. Alguns gênios nem conseguem perceber a ironia do estilo e acreditam que ele escreve do modo como escreve por não saber fazê-lo de outro modo…rs. Meu Deus.
[…] E nessa conversa sobre elite, eis que preciso descer o nível da discussão para revelar um caráter. Prometo: é a última vez que trato do moço. Parafraseando Tati Quebra Barraco, “ele está descontrolado”. E quem é ele? Dedé Sant’Anna, não o humorista, um dos Trapalhões. O Dedé Sant’Anna de que falo é o escritor (sic) sobre quem escrevi no dia 28 de julho no texto André Sant’Anna é o Paulo César Pereio da literatura brasileira recente. […]
André é um dos melhores escritores que eu já li. É muito fácil fazer “crítica” assim… Cadê o argumento? Primarismo estético? Faça-me o favor… Ele é bobo de responder ao Bruno. Devia ficar mesmo só na fotinha morrendo de rir dessa palhaçada.
André Sant’Anna é ótimo! Até hoje lamento o fato dele não mais escrever no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte. O que ele pode ter em comum com o Paulo César Pereio é ser desbocado(Paulo é chato e antipático). Sant’Anna é o melhor colunista que conheci. O homem, apesar de se dizer esquerdista, não poupa ninguém. Suas crônicas não poupam ninguém. Ele chama os outros de imbecis e até a si próprio. Dei muitas gargalhadas com seus textos. Eu o tenho como um niilista, embora acreditar que nem ele pens assim de si próprio.
eu achei bom pra caralho e corajoso
bruno, você sabe dirigir?
e, porra, não é um elogio ser comparado ao pereio?