Letra de música NÃO é poesia!

Você duvidou que havia gente defendendo letra de música como poesia, né? Confessa, confessa. Agora, lê isso, que achei no Cronopios:
LETRA DE MÚSICA É POESIA?
Por Antonio Miranda
Li por aí alguém afirmando que Chico Buarque não é poeta, é letrista. Em sentido contrário, Paulo Henriques Britto (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros empolgavam-me por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .” É bom frisar que Paulo Henriques, além de poeta, é lingüista por formação acadêmica.
Os letristas seriam poetas “menores”, as letras constituiriam uma sub-literatura, mal comparando a arte com o artesanato?
Sei não. Ouvindo rádio e assistindo televisão, escutando tantas banalidades… Raps e pagodões maçantes, sertanejos acaramelados, axé baiano e reggae maranhense insossos, rock caseiro e hip-hops repetitivos, dá para entender o preconceito em relação às letras de músicas como poesias. Mas, por exceção, deve haver axé, reggae, pagode e sertanejo de qualidade.
Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? E que dizer do Cartola? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense)? Eram sim, foram, são poetas e pronto. Caetano é um poeta!
Caberia, no entanto, em contrapartida, também afirmar que nem todas as letras de Caetano e de Chico podem ser consideradas poesia, mas apenas “letras” de música?
Alguém saiu com essa e eu não tinha uma resposta pronta, e deixo aos leitores o direito de resposta, como ao amigo o direito da dúvida. Na mesma linha de raciocínio, também seria possível afirmar que nem todos os poemas de Drummond ou de Bandeira são, em verdade, poesia. Seria admissível afirmar que alguns poemas de Fernando Pessoa seriam “menores”? Também vou escapar pela tangente…
Só queria discutir um ponto: a relação entre poesia e música no ato criativo. Há músico que faz a melodia e depois o poeta “coloca” a letra. Vinicius de Moraes teria feito isso com Tom Jobim, com Baden Powell e até com compositores clássicos. Pode ou não pode?
Em sentido contrário, o músico “musicaliza” o poema como fez Joan Manuel Serrat com os versos esplêndidos de Antonio Machado e o nosso Fagner fez com um texto de Cecília Meireles.
Tem muito a ver com o tipo de composição. Alguns músicos pautam melodias em quadraturas fixas, bitoladas, como o bolero ou o samba, levando-os á intervenção nas letras para ajustá-las, seja podando-as ou ampliando os versos. Também alguns poetas se enquadram nos compassos e ritmos assinalados. Mas alguns compositores, como Arrigo Barnabé e Tom Zé, criam livremente, sem conformar-se a ritmos da moda.
Aonde quero chegar? A lugar algum, a nenhum lugar…
Estamos falando de desafios. Vence quem tem talento, banaliza quem imita e não tem o que dizer. O que devemos julgar – se cabe algum juízo sobre a questão – é a coisa em si, o poema mesmo. Letra de música pode ser e não ser poesia.
“Luar do Sertão” é poesia com ou sem música. Tive a certeza disso, de forma empírica, quando uma amiga estrangeira, especialista em literatura, ficou impressionada com o poema, apesar de singelo. Hoje estudamos os textos de Catulo da Paixão Cearense e de Noel Rosa na academia como autênticos poemas, sem preconceitos, em dissertações e teses doutorais. Melhor ainda quando o estudioso busca a relação entre a música e o poema pois, sem dúvida, deve haver uma complementaridade (ou ampliação de sentido) entre ambos no ato da criação. A poesia, desde suas origens, sempre esteve ligada ao teatro, à música e a outras manifestações culturais.
O que dizer da inteligibilidade e da legibilidade da música e da poesia? O “intérprete” da música (pensemos em Maria Bethânia) costuma esforçar-se para que o ouvinte entenda o sentido (ou o “sentimento”) da letra da música. Pode até cantar à capela, só com a música das palavras no embalo da melodia, sem qualquer acompanhamento instrumental. O cantautor costuma valorizar sobremaneira a mensagem de suas composições tanto quanto o declamador ou o performer em um sarau ou poemashow. No entanto, muitos cantores (medíocres) não atinam para o significado das palavras que cantam e parece que o público ouve e não entende nada… e até gosta! Música sem mensagem explícita, sem significado apreensível, apesar da letra.
Em certa ocasião participei de uma gravação e o cantor não valorizava o texto da canção. Discuti com ele o sentido das palavras e ele incorporou na intenção do canto e a regravação ficou bem melhor. Mas já há poetas que também não perseguem a legibilidade dos textos e menos ainda para a sua inteligibilidade.Os textos são intencionalmente herméticos, intranscendentes, incomunicáveis. Nada em contra, tudo bem, ok, se a intenção é essa… Pior é quando o autor deseja comunicar algo e o que se ouve é sem sentido… Tem de tudo, vamos ficar por aqui.
Por último, antes que eu me esqueça, o que é mesmo poesia? Existem muitos tratados sobre o tema, é assunto para outra ocasião.
Para Antonio Miranda, se Paulo Henriques Britto, que “além de poeta, é lingüista por formação acadêmica” falou que letra de música é poesia, então letra de música é poesia. Se eu fosse seguir esse argumento de mesa de biriba poderia dizer: o poeta Bruno Tolentino disse que letra de música não é poesia, então, não é poesia. E minha referência é melhor do que a de Miranda, pois Tolentino é o maior poeta que tivemos enquanto Britto é um excelente tradutor, mas um poeta menor.
Volto a insistir: algumas letras de música são poéticas, mas não são poemas. O grande exemplo da diferença entre poesia e letra de música é a obra de Vinicius de Moraes. Coteje sua obra poética com as letras que compôs. Você vê nas letras as marcas do poeta, mas aquilo não é poesia. Então, Bruno Tolentino estava certo:
Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela (nota: a mãe do filho de Tolentino) nem sabe quem é, este Velosô (nota: Cateano Veloso), causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa.
Estamos conversados?
13 Comments so far
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Vinícius de Morais quando poeta bebia menos.
Bruno,
Infelizmente esta discussão vai continuar por muito tempo. E concordo com você, letra de música não é poesia. Mas não seria o caso de perguntar por que essa confusão acontece? A minha opinião é a de que a poesia brasileira anda tão em baixa, mas tão em baixa, ainda mais depois que Bruno Tolentino se foi, que neguinho anda chamando urubu de meu louro. Ou melhor, anda chamando até funkeiro de poeta. Onde estão os melhores poetas brasileiros hoje? Quem são eles? Quem você indicaria? Acho que o primeiro passo antes de separar o joio do trigo é saber o que é joio e o que é trigo, né, não?
Abraço,
Edson
Garschagen,
O Bruno Tolentino é realmente um bom poeta, concordo.
Mas o melhor poeta da língua portuguesa? Afirmação muito, muito duvidosa. Penso que o senhor está repetindo o que disse Olavo de Carvalho, sem refletir sobre o assunto.
A lista de autores superiores a Tolentino é imensa, cito aqui só alguns (em uma ordem aleatória): Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário Faustino, Ferreira Gullar. Defendo até que Paulo Henriques Britto é melhor do que Tolentino, mas a coisa ai fica mais difícil, “dá pressão”, como diriam as crianças.
Contra os outros citados, a briga “não dá pressão” nenhuma, pense bem, não dá.
E olhe que nem considerei a pletora de poetas que tivemos antes do modernismo, só para comparar Tolentino com aqueles de seu tempo.
Sinceramente, acredito que o senhor defende esse status da obra de Tolentino somente por conta dos posicionamentos do poeta sobre política e cultura, que podem ser até muito certos (outra história) mas não o fazem o melhor-dos-nossos-poetas.
Abraço.
Ah! Mas escutar “Ouvir Estrelas” na voz de Paula Toller é mais do que uma canção, é uma poesia!!!
“…amai para entendê-las, pois só quem ama pode ouvir estrelas…” Paula Bilac / Olavo Toller
Então não basta apenas ver as marcas do poeta? Mas, essas marcas não seriam poesias?
Meu caro Bruno
não vou entrar na polêmica, até porque não fui convidado. Por certo, o que tinha a dizer, já disse (ou escrevi). A questão agora é outra, como insinuei ao final da crõnica: e o que é então poesia? Várias pessoas me escreveram dando “suas” (deles) opiniões. Respeitáveis mas discutíveis como a sua invectiva: “algumas letras de música são poéticas, mas não são poemas.’ Válvula de escape… Não dá para dizer sim nem não… Ou seja são “poéticas” no sentido adjetivos mas não seriam “poemas” no sentido substantivo. E daí?
Antonio Miranda
[…] respeito do post Letra de música NÃO é poesia!, recebi o seguinte comentário de Antonio Miranda: Meu caro Bruno, não vou entrar na polêmica, […]
Olá,
Bem, gostaria que, se fosse possível, o ser me enviasse a teoria científica a respeito do assunto, visto que estou fazendo um trabalho para a Universidade, mande ao menos a bibliografia.
Grato!
Preciso do significado da musica de caetano veloso Meu Bem, meu Mal, fazendo referencia a relacionamento do homem/mulher.
Olá! Tudo bom?
Estou desenvolvendo um trabalho monográfico cujo tema é: “Fernando Pessoa Sob o Signo da Música” e qualquer informação, material e sugestões sobre o tema serão completamente aceitos! Estava fazendo uma pesquisa e acabei encontrando este site! Quem sabe alguém pode me ajudar não? rs
Abraços!
Paz e Bem Sempre!
Sofia
Olá bruno, estou recolhendo textos para meu tcc de pós-graduação sob o tema “Música e poesia: suas controvérsias e suas intersecções”. Gostei muito de seu texto e peço que, se possível, me mande alguma bibligrafia onde pesquisar, pois estou encontrando dificuldades.
obrigada
atensiosamente
Ariane Cristhina Boschi Melo
quero por favor a comprovação cientifica, se possivel.
Sou poetisa, cronista e contista desde menina. Minha sensibilidade é muito grande e quando eu “vejo poesia” numa letra de música,não hesito em criar um áudio “declamado”. Eu gosto, acho bonito e acho que existem letras de música que são verdadeiros poemas. Bom dia! Gostei do seu espaço. Sunny Lóra