Na semana passada, humoristas de várias partes do país se manifestaram contra a proibição da Lei Eleitoral quanto ao uso de "trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito" (Art. 45, II, da Lei 9.504 de 1997). Tal dispositivo legal, segundo os manifestantes, é uma forma de censura e cerceamento da liberdade de expressão, garantida pela Constituição Federal (Arts. 5º, IV, e Art. 220). O protesto obteve a primeira vitória ontem mesmo. O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto concedeu liminar suspendendo o trecho citado do Art. 45. O caso merece algumas considerações.
As reações pelos jornais foram a de costume e não há mal algum nisso. O tom geral era a condenação dos ataques à liberdade. A mais curiosa era de que a lei havia sido feita na medida para beneficiar os políticos, que temiam a concorrência dos profissionais do ramo. Eu até entendo o argumento, mas acho injusto. Porque ganha-se mais, na média, como Deputado Federal, Senador e Presidente da República do que como humorista. O bravo povo brasileiro pode considerar esta a verdadeira piada. Mas aí também vejo uma injustiça e até uma forma velada de preconceito. Porque uma piada exige uma certa graça, riso ou gargalhada. E os representantes da população são homens sérios, justos e altruístas.
Também devo lembrar que a eleição se realiza de dois em dois anos, a prova cabal da severidade da política nacional. Na certeza de que os brasileiros sentem falta do contato direto com seus representantes, achou-se a melhor forma de aplacar essa saudade cívica. Por que prolongar por quatro anos algo que pode ser feito com dois anos?
Ouço de forma recorrente que o brasileiro não gosta e não entende de política. Que vota pensando em benefícios imediatos. Que troca sua escolha por feijão, uma carne seca, uma garrafa de pinga e até um ultraleve. São acusações sem qualquer fundamento. O brasileiro, quando vota, consagra sua existência numa dedada na máquina eletrônica. Quem não considerar este um ato nobre, perdoe-me, mas não é humano.
Lembro de na primeira eleição de Lula ter esbarrado num senhor que saía da cabine de votação com olhar triufante, pose de imperador e que me disse, sério: “Foi a dedada da minha vida!” Eu consenti com a cabeça e fui para casa chorar.
Sou um homem emotivo. Desses que se debulham em lágrimas com os romances da Jane Austen e com o preço do uísque, digo, do café. As manifestações de patriotismo me encantam porque são a consagração do espírito cívico, uma espécie de Gasparzinho com a cara do Getúlio Vargas. Voto, para mim, é sagrado. Tanto que em maio, quando ainda morava em Oxford, explodindo de emoção democrática, fui votar em Winston Churchill.
A senhora que me atendeu explicou-me simpaticamente que eu não poderia votar no meu candidato. E não porque, veja bem, ele já não estivesse mais entre nós, algo que para mim era uma completa novidade, mas porque o título brasileiro não era aceito na zona eleitoral de Oxfordshire. Eu compreendi e exultei só de saber que poderia votar no Churchill, escrevendo na cédula com letra trêmula. Meu coração alegrou-se de forma irremediável. Admito que foi difícil sair do colo daquela senhora que me agradava com cookies saborosos e insistia no David Cameron como a escolha mais adequada.
Mas o ponto não é esse. É o amor que o brasileiro tem pela política. Amigos bem posicionados juram ter visto donos de grandes empresas e diretores dos maiores bancos nacionais visivelmente emocionados ao falar da política atual. E se você reparar, é um amor sincero, incondicional, assim como o amor dos pobres pelos políticos.
Certa elite tem uma visão distorcida sobre a população de baixa renda. Tende a achar que ela só se importa com Bolsa Família, churrasco e futebol. Trata-se de uma mistificação preconceituosa. Porque o rico também gosta de churrasco e futebol, e, dependendo da região do país, também do Bolsa Família. Não há nada mais bonito do que saber que o povo, independente da classe social, valoriza as coisas da terra. Certa vez, às margens do Tietê, eu sentei e chorei.
Mas eu falava sobre o humor. O que nos salva é o bom humor. De fato. E o amor sincero do povo brasileiro pela política é uma forma de amor sincero pelo humor. Não quero com isso estabelecer uma equivalência descabida entre dois temas tão caros. Até porque acho humor coisa bastante séria.
Por isso mesmo é que considero a solução mais adequada trocar as posições. Ficaríamos, então, assim:
No Humor:
- Dilma Roussef reuniria sua equipe para fazer o Casseta e Planeta.
- José Serra substituiria o Marcelo Tas no comando do CQC.
- Marina Silva continuaria no papel de Dona Joana no seriado Ó paí, ó.
Na Política:
- Hélio de la Peña seria o Presidente da República.
- Danilo Gentili seria escolhido o presidente do Senado.
- Lázaro Ramos seria eleito presidente da Câmara dos Deputados.
O que acha, hein, hein?
E daqui volto ao início e a razão pela qual escolhi fazer a defesa do diploma legal. Por que sou a favor da Lei Eleitoral? Porque essa mudança de funções e responsabilidades acabaria com os problemas da atual legislação, além do que a política ganharia um humor profissional e o humor ganharia uma seriedade involuntária e plenamente honesta. E porque, afinal, Mencken estava certo: um homem que consegue rir até de si mesmo nunca é verdadeiramente infeliz.