quinta-feira, 22 de julho de 2010

Estarei de volta em setembro

Caros,


o blog não morreu. A parada providencial foi provocada por compromissos acadêmicos, que, inclusive, permitiram realizar um sonho antigo de estudar na Universidade de Oxford. Esta é mais uma história a ser contada.


Volto a escrever com regularidade em setembro, quando o blog será reativado com novo design. Os arquivos antigos serão, aos poucos, colocados aqui.


Portem-se bem.


Amplexos,


Bruno Garschagen

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O liberalismo como ideologia ou como um conjunto de ideias (pt. 2)


Quais são as implicações de pensar e de aplicar o pensamento liberal de acordo com um receituário ideológico ou segundo um conjunto de ideias úteis para lidar com questões políticas e econômicas? Esta foi a questão que propus como tema de debate no meu artigo anterior e que pretendo aprofundar nesta série de ensaios. Se no texto passado fiz uma apresentação geral sobre determinados problemas que desafiam os liberais, neste começo a desmembrar alguns conceitos fundamentais a uma melhor perspectiva e enquadramento. Tratarei aqui de ideologia, uma palavra marcadamente identificada com a esquerda e com regimes autoritários e totalitários.
A palavra ideologia foi criada pelo filósofo e político francês Destutt de Tracy (1754-1836). Em seu Elements d’Ideologie, de 1817, Tracy a definia como a ciência e as origens das ideias. A ideologia, segundo Tracy, podia ser entendida como o surgimento das ideias a partir da mente ou da consciência e era o resultado das forças que moldavam o pensamento dos indivíduos. O homem cuja obra teve certa influência em Thomas Jefferson, que traduziu e publicou dois de seus livros na América, defendia a aplicação política da ideologia em nome do progresso da humanidade. O conhecimento completo, afirmou o filósofo, era o conhecimento das ideias.
A definição proposta por Destutt de Tracy não é definitiva. Como tantos outros conceitos, o de ideologia foi desenvolvido ao longo do tempo com aplicações cada vez mais específicas de acordo com o enquadramento exigido. Por isso, preferi apresentar algumas formulações que podem ajudar a verificar um traço comum útil ao objetivo deste ensaio.
Essa diversidade de conceitos foi esclarecidamente apresentada por Terry Eagleton em seuIdeology: An Introduction. Eagleton criou uma lista com 16 conceitos de ideologia e tirou conclusões didáticas: a) nem todas as formulações eram compatíveis umas com as outras; b) alguns conceitos identificavam a ideologia como algo pejorativo e outros de forma muito ambígua; c) alguns conceitos levantavam questões epistemológicas, a respeito de nosso conhecimento do mundo, uma tradição que vai de Hegel a Marx até os pensadores marxistas, e outros tinham viés sociológico, ou seja, conduzia a discussão para a função das ideias dentro da vida social não em termos de sua realidade ou irrealidade.[1] Ao investigar as ideologias, Robert Putnam identificou 14 diferentes maneiras com as quais as elites políticas utilizavam os termos.[2]
No período pós-Segunda Guerra, a ideologia foi elevada de um modesto conhecimento pragmático e popular para uma teoria sociológica elaborada. Uma interessante característica da época, que marcaria os estudos posteriores sobre o tema, eram duas visões da ideologia completamente contraditórias: de um lado, ideologia como algo cegamente irracional; de outro, como excessivamente racionalista.
Do primeiro entendimento, havia uma compreensão da ideologia como um corpo de “ideias apaixonadas, retóricas, impelidas por alguma fé pseudo-religiosa e ignorante que o mundo tecnocrático do capitalismo moderno felizmente tinha desenvolvido”.[3] Da segunda visão, depreendiam-se as ideologias como sistemas conceituais áridos que buscavam reconstruir a sociedade desde suas fundações e de acordo com algum projeto de engenharia social. Para Alvin Gouldner, ideologia é o “fervoroso reino do doutrinário, do dogmático, do exaltado, do desumanizado, do falso, do irracional, e, é claro, da consciência extremista”.[4]
O téorico político americano Edward Shills via as ideologias como fechadas, resistentes à inovação, promulgadas com uma grande dose de afetividade e que exigia comprometimento total dos seus seguidores. Já Daniel Bell, as definia como um sistema de ação orientada de crenças cuja função era motivar o povo a fazer ou a não fazer determinadas coisas, não apresentar a realidade transparente. Kathleen Knight define a ideologia, em termos gerais, como “um sistema - um único indivíduo ou até mesmo toda uma sociedade — se racionaliza”.[5]
Karl Mannheim investigou a ideologia também em termos de seu conteúdo e dividiu-a em dois significados distintos: um particular e um total. Dentro do significado particular, a ideologia denota que somos céticos quanto às ideias e representações levantadas pelo nosso adversário. A concepção total refere-se à ideologia de uma época ou de um grupo histórico-social, de uma classe social, por exemplo, quando o que nos interessa são as “características e composição da estrutura total da mente dessa época ou desse grupo”. [6]
Assim como Desttut de Tracy, também Karl Marx e Friedrich Engels argumentavam que as ideias eram moldadas pelo mundo material, entendido o material como as relações de produção submetidas à mudança e ao desenvolvimento. A exploração e as características alienadoras das relações econômicas capitalistas induziam as ideias que Marx e Engels entendiam como ideologia. “A ideologia só surge quando há condições sociais, tais como aquelas produzidas pela propriedade privada e que são vulneráveis à crítica e ao protesto. A ideologia existe para acostumar essas condições sociais com os ataques daqueles que estão em desvantagem”.[7]
Dentre os conceitos que apresentei alguns traços comuns são valiosos para o entendimento da aplicação do liberalismo como ideologia. Todos os autores que eu citei definem a ideologia em termos de seu conteúdo e função. Assim, a origem da ideologia estaria nas forças materiais e imateriais que moldariam o pensamento do indivíduo, e as ideais, uma vez formadas, tinham uma função social e deveriam ser aplicadas no progresso da humanidade. A ideologia também manifesta um cariz dogmático que, em alguns momentos, pode se confundir com a fé religiosa, o que em certos casos também explica a função motivacional e mobilizadora da ideologia.
A ideologia também teria dois elementos contraditórios, mas que em alguns autores, como Lênin, são combinados: irracionalidade cega e um racionalismo excessivo, aqui entendido como o racionalismo moderno investigado por Michael Oakeshott: uma crença absoluta no poder da razão para determinar o valor de algo, a verdade de uma opinião e a validade de uma ação.[8]
Enquadrar o liberalismo numa ideologia impõe alguns problemas que podem até descaracterizar alguns de seus princípios fundamentais. Se uma das bases do pensamento liberal é o respeito pela liberdade individual, própria e de terceiros, enfeixá-la numa ideologia significa contrariar tal fundamento ao usar as soluções liberais como um instrumento de violação de liberdades. As ideias liberais são convertidas num tipo de fé mobilizadora, motivacional e transformadora rumo ao progresso, ao desenvolvimento, ao livre mercado, à implantação da democracia, à maximização das liberdades ou a qualquer outro tópico caro aos liberais.
Há uma tentação perigosa, que tem sido manifestada de forma mais ou menos veemente pelos liberais brasileiros, de compreender e propor o liberalismo de forma dogmática, doutrinária e racional, estabelecendo um paradoxo que põe em causa todo um corpo de ideias. A liberdade como um bem supremo e a maximização de sua aplicação ignora um traço da individualidade que o liberalismo deveria respeitar: a imperfeição do ser humano. Ao confrontar uma ideologia com a própria condição humana o choque será inevitável e doloroso. A experiência histórica mostra o custo humano das imposições ideológicas. O que se pretende, afinal, é a vitória do liberalismo enquanto ideia ou o florescimento dos indivíduos e da sociedade?
__________

Notas
[1] Eagleton, Terry. Ideology: An Introduction. London: Verso, 1991, pp. 2-3.
[2] Putnam, Robert D. 1971. Studying Elite Political Culture: The Case of ‘Ideology’. American Political Science Review, 65, September: pp. 651–81.
[3] Eagleton, Terry. Ideology: An Introduction. London: Verso, 1991, p. 4.
[4] Ibid.
[5] Knight, Kathleen. Transformations of the Concept of Ideology in the Twentieth Century. American Political Science Review, Vol. 100, Nº 4, November 2006: pp. 619-626.
[6] Mannheim, Karl. Ideology and Utopia: An Introduction to the Sociology of Knowledge. London: Routledge, 1966, pp. 49-50.
[7] Law and Ideology. Standford Encyclopedia of Philosophy. 22 de Outubro de 2001.http://plato.stanford.edu/entries/law-ideology/. Acedido em 15 de julho de 2010.
[8] Oakeshott, Michael. Rationalism in Politics and Other Essays. Indianapolis: Liberty Fund, 1991, p. 6.


Publicado em OrdemLivre.org em 16 de Julho de 2010.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O liberalismo como ideologia ou como um conjunto de ideias


O liberalismo é uma ideologia ou um conjunto de ideias úteis para lidar com questões sociais, políticas e econômicas? Ou o liberalismo é a conjugação de ambos?
Os liberais brasileiros estão inaugurando a segunda fase do liberalismo dos anos 2000. Primeiro, foi a descoberta das ideias. Agora, a tentativa de enquadrar-se em alguma derivação: liberalismo clássico, liberalismo austríaco, anarco-capitalismo etc.. Desenvolve-se neste momento, quase que exclusivamente pela internet, um debate no qual o interesse e a boa vontade muitas vezes são suplantados pela ausência de sensatez e pela falta de estudo dos temas em questão.
Pelas listas privadas de discussão, redes sociais, sites de organizações e blogs, os liberais têm lidado com o conjunto de ideias como se fosse um brinquedo novo que ainda não se aprendeu a usar, seja por falta de leitura do manual, seja por uma certeza ligeira de que se compreendeu a parte substantiva do pensamento e se podem construir certezas inabaláveis desde assuntos mais simples às questões mais complexas.
Quando o liberalismo é convertido numa ideia perfeita, capaz de responder a todas as perguntas com uma única resposta correta, transforma-se numa ideologia utópica similar às outras a que deveria combater ou servir de contraponto. Qual a diferença entre uma ideologia que confere ao indivíduo ou ao mercado o estatuto de infalibilidade e perfeição, e uma outra que confere a mesma infalibilidade ao partido, ao líder ou ao proletariado?
Se o mercado é conduzido pelos indivíduos, só se depositam todas as fichas no funcionamento ideal do mercado se se acredita na atuação perfeita dos seres humanos. O entendimento de que o ser humano agirá sempre de forma ordenada e eficiente desde que livre da intervenção de terceiros (pelo estado ou qualquer poder centralizado) advém da certeza de que o indivíduo é perfeito e só não age plenamente porque constrangido ou coagido. A questão de fundo é uma ideia de perfeição que conduz a soluções fáceis e igualmente inaplicáveis. Fico sempre impressionado com a quantidade de gênios que aparecem publicamente expondo a chave da compreensão humana e social.
É legítimo compreender e defender o liberalismo como um conjunto de ideais que oferecem respostas adequadas (e não uma única resposta) a determinados problemas. É perigoso e estúpido defender as ideias liberais como uma ideologia capaz de salvar todos os seres humanos ou, pior, capaz de aperfeiçoá-los segundo um plano ideal de sociedade ou de modo de vida.
O utopismo revolucionário não é uma exclusividade de socialistas e comunistas. A certeza de que basta destruir o que existe (estado, instituições etc.) para florescer uma nova sociedade é uma estrada rumo ao cinismo ou ao caos. Por ser a diferença um traço distintivo dos seres humanos, é impossível ignorar a diversidade e apresentar uma solução absoluta, que terá, necessariamente, de ser imposta. A história do século XX é um exemplo concreto e recente dos resultados de décadas de fermentação ideológica revolucionária.
Quais são as implicações de pensar e de aplicar o pensamento liberal de acordo com um receituário ideológico ou segundo um conjunto de ideias úteis para lidar com questões políticas e econômicas? É a discussão que pretendo desenvolver nos próximos ensaios.


Publicado no OrdemLivre.org 2 de Julho de 2010.