terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Acordo ortográfico é engenharia social aplicada ao idioma



O embaixador de Portugal em França, Francisco Seixas da Costa, no seu recomendável blog duas ou três coisas, escreve sobre o acordo ortográfico:
"Ortographia"
Pois é, desculpem lá, mas acaba de sair no "Diário da República", de hoje, a Resolução do Conselho de Ministros que determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011-2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República.
Alguns não gostarão. Foi o que provavelmente sucedeu aos nossos antepassados, quando deixaram de escrever "pharmácia" e "assumpto". Como me disse um dia Evanildo Bechara, o negociador brasileiro deste Acordo, os entendimentos ortográficos (e já não "ortográphicos"), verdadeiramente, são feitos para as gerações seguintes.
Desde o início reagi negativamente ao acordo. Não formulei argumentos de filologia comparada, mas político. Achava, como ainda acho, que um grupo de especialistas junto com o Estado não deveriam se unir para definir regras sobre alterações do idioma.

Sei que não é o primeiro acordo que se estabelece entre os dois países e que a vivacidade da língua costuma ser sistematizada e oficializada em dados momentos da história recente. Mesmo assim, os argumentos dos defensores do acordo, um dos quais a unificação da língua portuguesa entre os países lusófonos, sempre me pareceram uma espécie de engenharia social aplicada ao idioma. Unificar para quê, por quê?

Alguns defensores diziam que a unificação do português facilitaria sua inclusão como um dos idiomas usados pela diplomacia nos foros internacionais.Se, por hipótese, o português de Portugal fosse o escolhido como idioma oficial dos textos diplomáticos nesse idioma os diplomatas dos demais países lusófonos não teriam capacidade de compreendê-los? Ou o problema seria um membro do corpo diplomático da China aprender o português de Portugal e não o português brasileiro? A briga residiria em qual português escolher? A meu ver, o português de Portugal, por uma questão histórica, deveria ser o escolhido.

Quanto às mudanças, ou adaptações, da língua, não vi maiores problemas, mas devo confessar que sou um mero curioso e não um especialista capaz de demonstrar conseqüências perniciosas dessas alterações. Do alto da minha ignorância, só posso dizer que é muito bom escrever ideia sem o acento agudo, como fiz durante os dois anos em que morei em Lisboa. Esteticamente, a palavra fica mais bela, assim como pharmácia sem o anoréxico F e assumpto, sem o N a encerrar bruscamente palavra tão conversadeira.

O que poderia ser feito? Retomar o português do Padre Antonio Vieira, mais próximo, aliás, do português brasileiro atual do que o de Portugal em uso, segundo me contaram especialistas e relatei em 2008 num texto que escrevi para a Folha de S. Paulo (Para ouvir os sermões). Diante da impossibilidade de adoção voluntária do idioma antigo, não há que considerar um acordo entre governos a nos obrigar, as sociedades lusófonas, a adotar as regras que os sábios estabeleceram.

Evanildo Bechara considera que o acordo é feito para as gerações seguintes? É mais fácil atribuir as injustificáveis decisões do presente a hipotéticos benefícios futuros (para uma geração vindoura sobre a qual tem-se um desconhecimento completo e monumental) do que assumir a falibilidade de um acordo com impacto direto sobre milhões de pessoas e suas inevitáveis e imponderáveis conseqüências não-intencionais.